MANIFESTAÇÃO GLORIOSA DO FILHO DE DEUS


A ESPERA DE NOS ENCONTRARMOS COM CRISTO

Marcos 13, 24-32 
            
No evangelho de hoje constata-se uma linguagem apocalíptica. O sol se escurecerá, a lua não dará seu resplendor; cairão os astros do céu e as forças que estão no céu serão abaladas (Mc 13, 24-25). Contudo, para tranquilizar os cristãos de sua comunidade o evangelista Marcos é incisivo lembra inicialmente o conselho do Mestre (JESUS CRISTO) para não deixar-se enganar com tais discursos insensatos (Mc 13, 5-8), não deve haver preocupação alguma quanto à data do fim do mundo; o verdadeiro problema é outro: trata-se de saber como é que devem viver no dia de hoje os discípulos, neste mundo. Na época em que Marcos escreve este capítulo do seu Evangelho, as comunidades cristãs estão agitadas e assustadas por causa de guerras, de calamidades e de crises que abalam o mundo inteiro. Na época atual também nós poderíamos sentir-nos abalados defronte as constantes guerras presentes em alguns países, as várias catástrofes naturais que acontecem com frequência, como também os cataclismos (transformações bruscas) políticos, econômicos e sociais que se registram em quase todas as partes do planeta. É bem verdade que as expectativas de um futuro incerto amedrontam os corações das pessoas sem fé.
            
Neste sentido esta perícope de Marcos mostra que para os discípulos, Cristo enuncia os sinais que antecedem grandes tribulações. Mas promete atenção especial aos que perseveram, pois os anjos reunirão “as pessoas que Deus escolheu” (Mc. 13, 27). Jesus convida todas as pessoas que sofrem porque ama a verdade, a paz, a justiça, a liberdade a não desanimar. Mesmo nas horas mais tenebrosas eles devem saber vislumbrar os sinais do reino que se aproxima. Resta-lhes para eles a vigilância. Marcos quer nos mostrar que devemos ser cristãos perseverantes em todos os momentos da vida, pregando o amor continuamente. A nossa salvação será estabelecida sobre nossos atos de amor. O vigiai corresponde ao estar presente, a não se omitir da realidade do mundo. Um dia nos será cobrada essa vigilância em função do Reino de Deus. E se nós nos encontrássemos com Cristo hoje, poderíamos afirmar que estamos preparados?
            
Ora, vigiar é estar preparado, na comunhão e no testemunho diário. Nesta perspectiva podemos afirmar que acreditamos nas promessas de Cristo, que aceitamos os caminhos estreitos, sofridos e dolorosos muitas vezes que de forma natural a vida nos apresenta. Quando aceitamos um compromisso com Ele, também aceitamos possíveis riscos. A Palavra de Jesus é viva e eficaz, ela é portadora da verdade e da felicidade que de forma eminente traz a salvação a todos quando escutada e praticada. Se Cristo nos chama constantemente e promete dias melhores sempre, porque não abraçar com profunda decisão e amor a sua proposta? Seguir seus passos é o grande compromisso que nos obriga a vivenciarmos uma fé autêntica e madura.
            
Mediante isto, ao dizermos sim a Cristo, estamos também simultaneamente dizendo não às nossas atitudes de comodismo. Para transmitirmos uma mensagem de fé temos que possuí-la, ou seja, é preciso vivê-la. Ninguém oferece o que não possui. Cada dia da vida é uma descoberta, um cenário novo. Cristo é uma descoberta cotidiana, que se renova constantemente em nossos corações. Num momento de provação, sua presença em nós é o maior de todos os pontos de apoio para perseverarmos. O cristão que possui uma fé alicerçada em Cristo jamais se desviará do caminho e se purificará cada vez mais. A dinâmica do cristão deve ser a vigilância diária, pois ela é capaz de purificar todas as ameaças contra a integridade espiritual. Por fim, a vigilância de cada Cristão nasce de uma consciência eficaz, determinada, nasce do íntimo do coração de cada um, a saber, de sua vontade própria, que distingue com nitidez a grande promessa: um dia nós vamos nos encontrar com Cristo, fiquemos, portanto preparados. O que eu digo a vocês, digo a todos: fiquem vigiando (Marcos 13, 37).

FIQUEM NA PAZ DE DEUS!

A MORTE UM DESAFIO PARA O HOMEM


A MORTE UM DESAFIO PARA O HOMEM
            
Desde a queda o homem se depara com uma condição frágil, limitada finita, por conseguinte a morte. A morte tornou-se para o homem um grande desafio. Diante da morte o homem sente um pavor, percebe sua fraqueza, percebe sua finitude. O homem marcha para a morte e ele sabe muito bem disso (RAHNER, 1989: 319). O homem sabe que vai morrer e com este saber constata-se nele uma grandeza porque entre todas as criaturas é única que tem a capacidade de pensar, mas devido este saber ele se angustia por compreender que sua natureza humana se encontra numa condição frágil, limitada e, por conseguinte finita. Mas no homem se encontra uma abertura para Deus por ter sido criado imagem e semelhança do Criador. É na autotranscendência que o homem transcende infinitamente a si mesmo (cf. PASCAL apud RABUSKE, 1986: 9) para encontrar Deus, mesmo existindo nele uma condição de natureza finita.
            
O homem por sua condição finita sempre vive procurando algo que preencha o vazio que sente pela ausência de Deus devido, por isso, muitas vezes se ver angustiado, triste e infeliz por sentir-se às vezes distante de tal fato. Mas, Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar (CIC, 1999: 21). Neste sentido o salmista afirma: alegre-se o coração dos que buscam o Senhor (Sl 105, 3). Ele permanece basicamente sempre a caminho (cf. RAHNER, 1989: 46). O homem não sai dos confins do próprio ser para mergulhar no nada, mas sai de si mesmo para lançar-se para Deus, o qual é o único Ser capaz de levar o homem à realização eterna e perfeita de si mesmo (cf. MONDIN, 1980: 69).
            
O homem, só é homem na medida em que está a caminho de Deus, se ele sabe disto explicitamente ou não, se ele aceita isto ou não, pois ele é, em sua essência, a abertura infinita do finito a Deus (cf. RAHNER apud OLIVEIRA, 1984: 158). Deus é o infinito que o homem tanto procura para encontrar uma resposta firme que alivie sua ansiedade e responda à pergunta implícita da finitude em que se encontra. Deus é o ser absoluto, o fundamento absoluto, o mistério absoluto, o bem absoluto, o horizonte definitivo e absoluto em cujo interior se realiza a existência humana (cf. HAHNER, 1989: 94). Nesta reciprocidade de abertura-relação, Deus também se manifesta e se dirige ao ser humano, vemos isto na revelação bíblica (por meio dos profetas) que a história nos apresenta através do povo Judaico. Destaca-se de forma eminente o povo judaico na perspectiva de compreender e de relacionar-se com Deus como o absolutamente transcendente presente na história, pois esta foi uma das suas maiores conquistas, que é verbalizada no Antigo Testamento.
            
Mediante isto, no âmbito da visão cristã precisamente no Antigo Testamento e Novo Testamento vemos duas perícopes (1 Reis, 17, 17-24 / Lucas 7, 11-17) onde encontramos situações de mortes. Nos dois casos encontramos uma mulher viúva que perde o único filho e um homem de Deus que lhe restitui a vida. Mais do que as evidentes semelhanças, devemos, porém, destacar uma diferença significativa: enquanto Elias é só um profeta que, para conseguir o milagre, precisa invocar o Senhor da vida, Jesus é mais do que um profeta, é o próprio Senhor da vida, e por isso não recorre a ninguém; ressuscita o jovem só com a força da sua palavra. Lucas por sua vez o chama de “Senhor” (O Senhor, ao vê-la, ficou comovido e disse-lhe: “Não chores!” / Lc, 7, 13). A palavra de “Senhor” no Antigo Testamento era reservada só a Deus. Lucas aqui o aplica – pela primeira vez no seu Evangelho – a Jesus; deste modo quer que os cristãos das suas comunidades entendam que, em Jesus, o Deus da vida veio encontrar os homens aflitos e derrotados pelo drama da morte. Jesus não manifesta ser o Deus da vida porque impede os homens de deixarem este mundo, mas porque, fazendo com que passem através da morte, os introduz num mundo novo, porque lhes comunica a sua própria vida.
            
Olhar o mundo de hoje com o espírito crítico e derrotista de quem já não acredita em melhora é atitude comum de grande maioria, mas quem vive uma experiência de fé sabe; quão possíveis e maravilhosas são as visitas de Jesus nos momentos de atribulações ou desconsolos. Essas visitas possuem o colorido místico dos milagres, capazes de ressuscitar em nós uma esperança maior e uma vida nova. Corriqueiramente, somos tentados a olhar a vida, o mundo, as pessoas, com o espírito fechado às maravilhas de Deus. Detectamos, por primeiro, a desoladora ameaça da morte, quando, pela revelação de nossa fé, deveríamos ser luz de nova esperança, num mundo em trevas. A vida é ordem, é ação, é coragem... “Jovem, eu lhe ordeno, levanta-te!”
             
Síntese para melhorar sua reflexão acerca
Do evangelho de LUCAS 7, 11-17

Ø Relacionar com o episódio de Elias (perícope do livro de 1 Rs. 17).
Ø Relacionar os dois cortejos (a comunidade cristã e a humanidade);
Ø O título de Senhor (Jesus é o Deus da vida);
Ø Jesus se compadece da viúva;
Ø Jesus toca no ataúde;
Ø A vitória de Jesus sobre a morte;
Ø Na comunidade Lucana havia muitas viúvas (Lucas convida os cristãos com a catequese a olharem para tais mulheres com o olhar de Cristo) devem ser amadas, amparadas e respeitadas.

Referências:

ARMELLINI, Fernando, Celebrando a Palavra – Ano C, Editora: Ave-Maria, São Paulo, Brasil, 1998.

Bíblia de Jerusalém, Editora: Paulinas, São Paulo, Brasil, 2002.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1999.

LUCAS, Evangelho Segundo, Os Evangelhos passo a passo / Vol. II, O Recado Editora Ltda. São Paulo, Brasil, 2002.

MONDIN, Bastista, Introdução à Filosofia, Problemas – Sistemas – Autores – Obras, Coleção Filosofia 2, Edições Paulinas, São Paulo, Brasil, 1980.

OLIVEIRA, Manfredo Araújo, Filosofia Transcendental e Religião, Ensaio Sobre a Filosofia da Religião em Karl Hahner, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1984.

RABUSKE, Edvino A., Antropologia Filosófica, Editora Vozes Ltda, Petrópolis, Rio de Janeiro, Brasil, 1986.   

RAHNER, Karl, Curso Fundamental da Fé, Coleção: Teologia Sistemática, Edições Paulinas, São Paulo, Brasil, 1989.

RAZÃO E REVELAÇÃO


Razão e Revelação

            Um grande anseio que pervade a existência humana em todas as épocas é chegar ao conhecimento da verdade. Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência. Tanto no Oriente como no Ocidente, é possível entrever um caminho que, ao longo dos séculos, levou a humanidade a encontrar-se progressivamente com a verdade e a confrontar-se com ela. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a ele, para que, conhecendo-o e amando-o, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33, 8; Sl 27/26, 8-9; 63/62, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3,2).
            O termo filosofia significa, segundo a etimologia grega, “amor a sabedoria”. Efetivamente a filosofia nasceu e começou a desenvolver-se quando o homem principiou a interrogar-se sobre o porquê das coisas e o seu fim. A filosofia tem a grande responsabilidade de formar o pensamento e a cultura por meio do apelo perene à busca da verdade, deve recuperar vigorosamente a sua vocação originária.
            A Igreja não é alheia, nem pode sê-lo, a esse caminho de pesquisa. Desde que recebeu, no Mistério Pascal, o dom da verdade última sobre a vida do homem, ela fez-se peregrina pelas estradas do mundo, para anunciar que Jesus Cristo é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). No entanto a fé, que se fundamenta no testemunho de Deus e conta com a ajuda sobrenatural da graça, pertence efetivamente a uma ordem de conhecimento diversa da do conhecimento filosófico. A fé aperfeiçoa o olhar interior, abrindo a mente para descobrir, no curso dos acontecimentos, a presença operante da providencia de Deus, é como se dissesse que o homem, pela luz da razão, pode reconhecer a sua estrada, mas percorrê-la de maneira decidida, sem obstáculos e até ao fim, ele só o consegue se, de ânimo reto, integrar a sua pesquisa no horizonte da fé. Por isso, a razão e a fé não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus. A fé e razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Nesta perspectiva podemos dizer que: a filosofia e as ciências situam-se na ordem da razão natural, enquanto a fé, iluminada e guiada pelo Espírito, reconhece na mensagem da salvação a “plenitude de graça e de verdade” (cf. Jo 1, 14) que Deus quis revelar na história, de maneira definitiva, por meio do seu Filho Jesus Cristo (cf. 1 Jo 5, 9; Jo 5, 31-32). Em virtude dessa revelação, Deus invisível (cf. Cl 1, 15; 1 Tm 1, 17), na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15, 14-15) e convive com eles (cf. Br 3, 38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele.
            Mediante isto, diante de tamanho mistério a economia da revelação realiza-se por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens nos é manifestada, por esta Revelação, em Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação.
            A encarnação do Filho de Deus permite ver realizada uma síntese definitiva que a mente humana, por si mesma, nem sequer poderia imaginar: o Eterno entra no tempo, o Tudo se esconde no fragmento, Deus assume o rosto do homem. Com efeito, é nele que tem lugar toda a obra da criação e da salvação, e sobretudo merece destaque o fato de que, com a encarnação do Filho de Deus, vivemos e antecipamos desde já aquilo que se seguirá ao fim dos tempos (cf.  Hb 1, 2).
            Por fim, essa verdade revelada é a presença antecipada na nossa história daquela visão última e definitiva de Deus, que está reservada para quantos acreditam nele ou o procuram de coração de sincero. Assim, o fim último da existência pessoal é objeto de estudo quer da filosofia, quer da teologia. Embora com meios e conteúdos diversos, ambas apontam para aquele “caminho da vida” (Sl 16/15, 11) que, segundo nos diz a fé, tem o seu termo último de chegada na alegria plena e duradoura da contemplação de Deus Uno e Trino.

Referência:

João Paulo II, Fides et Ratio, Editora Paulinas, São Paulo, Brasil, 1998.

RAHNER, Karl, Curso Fundamental da Fé, Edições Paulinas, São Paulo, Brasil, 1989.

CONCLUSÃO DO NOSSO TRABALHO ACERCA DA VIDA DE SÃO PAULO


Conclusão do nosso trabalho acerca da vida de São Paulo

                        
Parece fácil notar que atividade incansável e sempre criativa e bem motivada atividade evangelizadora de Paulo, em meio a muitas adversidades, era sustentada por uma bem cultivada relação pessoal com Jesus Cristo. E o fato fundante foi a experiência de Damasco. Foi naquele encontro que começou, e que conheceu desdobramentos surpreenden-tes, todo o seu dinamismo espiritual.
                        
As epístolas deixam entrever um homem de emoções intensas, de alegrias, de dores, de angústias, de esperanças. Era um homem que tinha projetos para o futuro, que era consciente dos seus limites, que cultivava e preservava sua identidade (apóstolo) e zelava por sua missão. Era capaz de relações profundas e duradouras, afeito a amizades e à colaboração. Ele falava sem censuras dos seus sentimentos mais profundos, das amarguras que o ministério lhe reservava, das motivações que o sustentavam. Ele não ocultava, nem nas boas coisas, nem nas realidades mais adversas. E isso demonstra que era um homem de ótima integração psicossomática, que tinha um centro unificador para sua vida. E era Jesus Cristo: “Para mim viver é Cristo” (Fl 1,21). Por causa dele valia a pena perder tudo, renunciar a tudo, reduzir seu corpo à servidão, viver sobriamente na abundância e na necessidade. Em uma palavra, a intimidade com Jesus Cristo configurou sua liberdade. E tornou-se um homem extremamente livre e totalmente entregue à causa do seu Senhor.
                        
O próprio Paulo sugere como era ele antes do encontro com Jesus Cristo. Já antes era um tipo de paixões fortes e decisões corajosas. Era apaixonado pelo judaísmo. Por isso “perseguia sobremaneira”, chegava às raias do fanatismo. Parecia ser afeito à emulação, pois diz que “progredia mais que os compatriotas de minha idade” (Gl 1,14). Era-lhe interessante distinguir-se no zelo pelas tradições paternas. Em favor das mesmas até a violência recebia legitimidade. Quando seguidor de Jesus Cristo e anunciador do seu evangelho, face a presença de outros pregadores, também cristãos, mas que perturbavam as comunidades por ele fundadas e comprometendo a mensagem anunciada, então sim afloraram seus traços de indignação e de intransigência. Todavia, já não era o homem violento. Não disputava espaços ou prerrogativas. Na realidade, até sua linguagem dura, a história o mostrou, era parte da fidelidade que o sustentou até mesmo na prisão e no martírio.

FIQUEM NA PAZ DE DEUS!

SÃO PAULO E SUA RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES


4.4 – São Paulo e sua relação com as Comunidades

                        
As relações entre o pastor e suas comunidades tornam-se um precioso meio para revelar os traços humanos e pessoais do primeiro. Seus afetos, seus zelos, sua capacidade de perdoar, de compreender, de liderar, de suportar retratam as disposições de fundo do servidor. A evangelização é um campo precioso e preciso no qual o homem, o discípulo e o pastor iluminam-se reciprocamente. Lançar, pois, um olhar atento sobre a linguagem, sobre as expressões de comunhão e de conflitos entre Paulo e suas comunidades é um caminho rico de possibilidades para reconhecer traços da personalidade de Paulo, um homem que preferia não falar de si.
                        
Pode-se notar que o evangelizador corajoso também se portava com grande zelo e sensibilidade. São belas suas expressões aos Coríntios: “E isto sem contar... minha preocupação quotidiana, a solicitude que tenho por todas as Igreja. Quem fraqueja, sem que eu me sinta fraco? Quem cai, sem que também eu fique febril?” (2Cor 11,28-29). Vislumbra-se nestas linhas, mas também em muitas mais, uma extraordinária participação de coração na vida das pessoas e das comunidades. Aos Tessalonicenses, por exemplo, expressa-se ora com sentimentos maternos, ora paternos (1Tes 2,7-8; 2,11-12). Apenas um exemplo: “Apresentamo-vos no meio de vós... como uma mãe que acaricia seus filhos... desejávamos dar-vos não somente o evangelho, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos” (2,7-8). Paulo percebera que não é possível evangelizar sem afetos oblativos. Conjugou de maneira admirável missão e afeição.
                        
O afeto pastoral o guia até mesmo quando lhe toca falar com severidade. A respeito de uma carta enviada aos Coríntios, “escrita em meio a muitas lágrimas”, ele especifica: “Escrevi... não para vos entristecer, mas para que conheçais o amor transbordante que tenho para convosco” (2Cor 2,4). Suas reações não eram as do autoritário, zeloso por suas prerrogativas de comando, mas do servidor atento ao caminhar de sua comunidade. Era expressão da doação de si mesmo. Isso pode ser observado na mesma epístola: “Quanto a mim, de bom grado... me despenderei todo inteiro a vosso favor” (12,15).
                        
É verdade, ele não esconde suas atitudes de um zeloso paraninfo. Mas o faz com desprendimento: “Experimento por vós um zelo semelhante ao de Deus. Desposei-vos a um esposo único, a Cristo, a quem devo apresentar-vos como virgem pura” (2Cor 11,2). Subjacente a esta imagem está a tradição vétero-testamentária do noivado e casamento. O pai da esposa assume o dever de conservar a filha intacta para o esposo. Neste versículo e esposo é Cristo. É para este amor, o da esposa com o esposo, que Paulo se volta zelosamente.
                        
Entretanto, Paulo não somente se afeiçoa às suas comunidades. Deseja delas seus afetos. Precisa da reciprocidade das mesmas. Sempre aos Coríntios, eis o seu pedido: “Pagai-nos com igual retribuição. Falo-vos como a filhos: dilatai também os vossos corações” (2Cor 6,13). Também aos Gálatas manifesta sua dor por ter sido preterido: “Recebestes-me como um anjo de Deus, como Cristo Jesus...dizendo-vos a verdade eu me tornei vosso inimigo?” (Gl 4,14.16). E gosta de ser afetuosamente recordado: “Agora Timóteo voltou...trazendo-nos boas notícias... afirmando que guardais sempre afetuosa lembrança nossa...”. E todo este afeto se torna oração e realimenta a espiritualidade. Ele reza por suas comunidades (Rm 1,9-10; Fl 1,4) e solicita das mesmas participação nos seus projetos mediante a intercessão (Rm 15,30-31).
                        
Nas relações com as comunidades, Paulo mantém a dinâmica do servo. Não é comunidade a servi-lo, mas ele se faz servo da comunidade. Os seus adversários, que se apresentavam com ares de liderança, superestimavam sua própria projeção espiritual (2Cor 11,4-7). Seu princípio é outro: “Não tencionamos dominar a vosaa fé, mas colaboramos para que tenhais alegria.” (2 Cor 1,24), pois que ele tem bem presente qual é o seu lugar entre Jesus Cristo e as comunidades. Ele é servidor, cuja origem e fundamento é Jesus Cristo: “Não proclamamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, Senhor. Quanto a nós mesmos apresentamo-nos como vossos servos por causa de Jesus” (2Cor 4,5). Sua justa auto-estima funda-se na condição de servidor generativo, isto é, “ainda que tivésseis dez mil pedagogos... fui eu quem pelo evangelho vos gerou em Cristo Jesus” (1Cor 4,15).
                        
Consciente da sua condição de servo, Paulo renunciou a manifestações espetaculares de suas faculdades carismáticas. Escolheu vias mais modestas, porém com mais efeitos para a maturação das suas comunidades: “Dou graças a Deus por falar em línguas mais do que todos vós... mas prefiro dizer cinco palavras com minha inteligência, para instruir também os outros, a dizer dez mil palavras em línguas” (1Cor 14,19-20). Não busca a projeção e admiração de si mesmo. Vale muito mais para ele o convencimento: “Compenetrados, pois, do temor do Senhor, procuramos convencer os homens” (2Cor 5,11).
                        
Todavia, com os adversários, com aqueles que se interpõem entre ele e as suas comunidades e lançam dúvidas sobre a verdade do evangelho por ele anunciado, suas palavras são cortantes: são “falsos irmãos” (2Cor 11,26), são falsos apóstolos e operários enganadores, que atuam como se fossem ministros de Satanás (11,13-14). As palavras parecem tomadas do modelo da crítica aos falsos profetas, contra os quais o profeta Jeremias foi veemente (cf. Jr 23, 9ss). Emprega com ironia aos seus adversários judaizantes o mesmo epíteto que no judaísmo palestinense valia para os pagãos: Cuidado com os cães (Fl 3,2). 

Não se tratava de incompatibilidades subjetivas. O que estava em jogo era o Evangelho de Jesus Cristo na sua forma mais pura e originária, como lhe havia revelado o Senhor. E seu ministério recebera a aprovação de “Tiago, Cefas e João” que lhe haviam estendido a mão em sinal de comunhão (Gl 2,9). Afinal, Paulo compreendera que sem a comunhão com os apóstolos estaria “correndo em vão”. Por isso mesmo, o evangelizador determinado e vigoroso subiu a Jerusalém e expôs a eles o evangelho que proclamava aos gentios. Os apóstolos, por sua vez, reconheceram que a Paulo “fora confiado o evangelho dos incircuncisos” (Gl 2,7).

FIQUEM NA PAZ DE DEUS!

SÃO PAULO E SUA RELAÇÃO COM DEUS


4.3 – São Paulo e sua relação com Deus

                        
Qualquer abordagem sobre a personalidade e os comportamentos de Paulo necessariamente requer a atenção voltada para esta dimensão fundamental, que configurou todas as outras áreas da vida do grande apóstolo. Deus não apenas o fundamento de sua existência. Era também o objeto de sua paixão. Fora ensinado, desde os seus primeiros dias, a amá-Lo com “todo o coração, com toda a alma, com toda a força, com todo o entendimento. Por sua experiência judia interpretava que era Deus quem guiava seu povo e os filhos do seu povo. Era assim que o Paulo cristão, apóstolo e evangelizador, se reconhecia diante dEle. Por isso mesmo perscruta as determinações de Deus sobre a oportunidade de ir a Roma (Rm 1,10), ou retornar uma outra vez a Tessalônica (1Ts 3,11). Afinal está convicto de que “Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio” (Rm 8,28).
                        
Daí segue o grande apreço pela oração e pela constância de seu comportamento orante. No exórdio de suas cartas, exceto em Gálatas, há sempre oração de ação da graças. Ele tem presente consigo aqueles por quem ora; sua oração conserva sintonia com as suas necessidades. Muito ilustrativo é o texto de 1Cor 3,6-10: um planta, outro rega, mas Paulo está convencido de que estéril colocar fundamentos, plantar, regar se Deus não atuar. Muitos cooperam, mas é Deus quem dá o crescimento. Para Paulo a oração é, pois, um meio irrenunciável para suas realizações pastorais.
                        
Paulo ora incessantemente, com gratidão a Deus, pelos progressos de suas comunidades. Mas em sua súplica integra também suas necessidades pessoais. Por três vezes implorou ao Senhor que o livrasse do seu “aguilhão na carne” (2Cor 12,8). O número três acentua a insistência do orante. Não foi atendido. A resposta tomou outra direção: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder”. A resposta foi negativa, mas com valência positiva, pois indicou com clareza e conferiu sentido ao destino de sofrimento do apóstolo orante. Na oração Paulo parece ter reconhecido que o sofrimento não desintegra as pessoas, mas é a ocasião para que a potência de Cristo, crucificado e ressuscitado, produza frutos através de fraqueza do seu discípulo.
                        
Um outro aspecto importante da espiritualidade de Paulo, com incidências em sua vida concreta e em sua personalidade, pode ser acentuado a partir do tema da “comunhão com Cristo”. Aparece tipificada na expressão paulina “em Cristo”. A espiritualidade pessoal de Paulo estava totalmente centrada em Jesus Cristo. Desta comunhão com Ele interpretou a liberdade do cristão: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). Porque livre pôs-se à disposição do Senhor e das suas comunidades, em posição de obediência: “Ainda que livre em relação a todos, fiz-me servo de todos, a fim de ganhar o maior número possível”. (1Cor 9,19). E novamente sua vida com Cristo qualifica-o para afrontar com grandeza e dignidade o sofrimento: “Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados... trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja manifestada em nosso corpo” (2Cor 4,8-10). Este é o caminho paradoxal mediante o qual Paulo viveu sua condição de homem livre em Jesus Cristo.

FIQUEM NA PAZ DE DEUS!

SÃO PAULO E SUAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS


4.2 – São Paulo e suas relações interpessoais
                       
                        
Em seus escritos Paulo nunca menciona pais, irmãos ou parentes. At 23,16 é a única menção de que tinha uma irmã e sobrinho em Jerusalém. É uma informação imprecisa, que requer cautela na hora de tirar conclusões. Questão diversa é a sua posição face ao matrimônio. Em 1Cor 7,7 Paulo aconselha o estado célibe. Ele mesmo é assim. É verdade que tal juízo estava sob o influxo da espera iminente da parusia do Senhor. “O tempo se fez curto... e a figura deste mundo passa” (1Cor 7,29.31). De qualquer forma, segundo palavras do próprio Paulo, à diferença dos outros apóstolos, ele renunciou a ter esposa (1Cor 9,5). Tudo para melhor cuidar “das coisas do Senhor” (cf. 7,32). Na realidade, para Paulo seria muito difícil ter uma família e esperar dela que suportasse as mesmas fadigas que carregou consigo como apóstolo e missionário. 
                        
Paulo não foi celibatário por um puro ascetismo, entendido como fim em si mesmo. É verdade sua vida foi marcada por muitas privações e mortificações. Mas como ele mesmo explica, “os atletas se abstêm de tudo; eles para ganharem uma coroa perecível; nós, porém, para ganharmos uma coroa imperecível” (1Cor 9,24). Porque fora alcançado por Jesus Cristo quer participar dos seus sofrimentos, buscando assim alcançar a Ressurreição com Ele (Fl 3,12-14). É por esta razão que embora o homem exterior se desmorone, o homem interior se renova cada dia (1Cor 4,16). Aliás, por causa de Jesus Cristo ele se fez judeu para ganhar os judeus; portou-se como se vivesse sem a Lei para conquistar os que os que não estavam sujeitos a ela; fez fraco com os fracos; tudo “por causa do evangelho, para dele me tornar participante” (1Cor 9,19-23).
                        
A avaliar pela independência das decisões de Paulo, pela originalidade de seu pensamento, pelos seus dotes de liderança, poder-se-ia pensar que se tratava de um individualista. Mas ele mesmo mostra que não era um sujeito voltado para si mesmo. O fato de fundar comunidades e reunir em torno a si muitos colaboradores indica que era capaz de missionar com os outros, de trabalhar em equipe e de estabelecer relações de amizades. Seu relacionamento com Timóteo, o mais próximo dentre os que com ele colaboravam, era matizado por sentimentos paternos: “como filho ao lado do pai, ele serviu comigo à causa do evangelho” (Fl 2,22). Era também capaz de aceitar serviços e participações. Da mãe de Rufo, no capítulo das saudações da epístola aos romanos, Paulo diz que se tornou mãe também para ele (Rm 16,13). Era grato a Prisca e Áquila, seus colaboradores que arriscaram a própria vida para para salvá-lo (Rm 16,3). Na realidade todo o capítulo 16 da epístola aos romanos é um testemunho eloqüente da capacidade de Paulo de estabelecer vínculos de amizade.
                        
O homem de personalidade forte e determinada, capaz de não retroceder face às situações mais desafiadoras, que não procurava notoriedade para si mesmo, que evitava falar de si e renunciava com liberdade os seus direitos de evangelizador, era, todavia, muito espontâneo em expressar seus sentimentos. Quando se deterioraram as relações com a comuni-dade corintia, escreveu-lhes uma carta impregnada de aflição: “Em grande tribulação e com o coração angustiado que vos escrevi em meio a muitas lágrimas...” (2Cor 2,4). Apesar do estado crítico das relações com eles sente-se profundamente unido a eles; usa expressões fortes para ilustrar seus afetos por eles: “Estais em nosso coração para a vida e para a morte” (7,3).
                        
Sua cordialidade emerge à superfície particularmente com Onésimo, o escravo fugido, em favor de quem intercede cm seu escrito a Filêmon. E o faz com as mais intensas expressões de seus sentimentos paternais. Já ancião e encarcerado, escreve: “Venho suplicar-te em favor de meu filho Onésimo, que gerei na prisão... ele é como se fosse meu próprio coração”. Aliás, quando se trata de sentimentos do coração (sentimentos “entranhados”), Paulo não pode se referir ao povo de Israel, endurecido, sem que se lhes “comovam a entranhas”. Em Rm 9,2-3 ele adota uma fórmula muito singular para exprimir o ardor do sentimento que o mantém ligado ao seu povo: “Tenho grande tristeza e dor incessante em meu coração. Quisera eu mesmo ser anátema, separado de Cristo em favor dos meus irmãos...”.  Sem dúvida é uma linguagem forte, excessiva, mas que se presta muito bem para ilustrar o vigor sentimental de Paulo. 

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SÃO PAULO E OS GRANDES TRAÇOS DE SUA PERSONALIDADE

4 – São Paulo e os grandes traços de sua personalidade

4.1 – A “pequenez” do homem e a grandeza do Apóstolo

As cartas de Paulo são o caminho possível para se aceder, ainda que apenas parcialmente, a importantes traços da personalidade deste evangelizador por excelência. Acerca de sua pessoa muitas interrogações podem ser formuladas. Que tipo de homem era, como pensava, como vivia, como reagia? Era de caráter dócil ou inflexível? Como eram suas relações com o mundo, com seus semelhantes? As perguntas poderiam se enumerar. As epístolas, todavia, oferecem apenas pistas. Muitas questões permanecerão sempre no âmbito das hipóteses. O que segue é uma tentativa de conjugar os grandes traços de sua personalidade partindo do que ele mesmo deixou entrever.
                        
De muitas maneiras se poderia falar da fortaleza que movia Paulo a se manter profundamente identificado com sua missão. Os enfoques podem ser multíplices. Aqui se preferirá observá-lo a partir de realidades contrastantes vividas por ele. E uma primeira anotação pode ser tomada da sua condição de enfermidade. Ao que parece, Paulo não era favorecido pela saúde. Pouco dado a falar de questões pessoais, por várias vezes suas páginas referem sua situação de doença. Em Gl 4,13-14 se pode ler: “Bem o sabeis, foi por causa de uma doença que eu vos evangelizei pela primeira vez. E vós não mostrastes desprezo nem desgosto...”. Com certeza isso não passava desapercebido por parte das comunidades. O “aguilhão na carne”, que ele sentia como “golpes de Satanás”, entre outras possíveis interpretações, deixa entrever que se tratava de algum mal que lhe causava muitas dores físicas. 

É no quadro de sua enfermidade aparece logo um dos fortes contrastes que marcaram admiravelmente sua personalidade: apesar de suas debilidades físicas, foi extremamente forte na realização de uma missão excepcional. É só pensar nos açoites, nas flagelações, nos naufrágios, na lapidação; ou ainda nos caminhos difíceis, inóspitos e escarpados que percorreu (Licaônia, Capadócia, Galácia), ou nos perigos que atravessou (2Cor 11,26-27: “...Perigos nos rios... perigos no deserto, perigos no mar... fadigas, duros trabalhos, numerosas vigílias, fome e sede, múltiplos jejuns, frio e nudez”). Com certeza, todos estes embates comprometiam sua vitalidade física. Com justeza podia ele escrever: “Trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,17). Mas nunca desanimava porque quando se reconhecia fraco, então experimentava a força (2Cor 12,10). 

Outros traços que revelam, por via de contraste, a grandeza da personalidade de Paulo são suas atitudes frente aos adversários. Jogavam-lhe em rosto que era modesto quando estava presente entre os coríntios e corajoso somente quando estava distante (2Cor 10,1). Diziam que suas cartas eram “severas e enérgicas, mas ele, uma vez presente, é homem fraco e sua linguagem é desprezível” (2Cor 10,10). A fraseologia poderosa sugeria uma personalidade vigorosa, mas seu falar não suscitava impressão. Talvez no confronto com seus oponentes, especialmente os de Corinto, tenha experimentado o gosto amargo da derrota. Cabe supor que quando se tratava de fazer valer a própria pessoa, Paulo adotava atitudes de modéstia. Quando se viu constrangido a enaltecer a si mesmo, advertiu que falava “como um insensato, certo de ter motivo de me gloriar” (2Cor 11,17). Com isso dava a entender quanto lhe era incômodo evidenciar a si mesmo. Entretanto, quando se tratava de defender o evangelho e de sustentar a causa de seu Senhor, então era extremamente forte . 

A tensão entre a modéstia pessoal e a magnitude de sua missão expõe de maneira admirável a condição humana do apóstolo. Ele não esconde este duplo aspecto. É só observar a fineza, quase timidez, com que se apresenta à comunidade dos romanos, que ele desconhecia: “Realmente desejo muito ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual... ou melhor, para nos confortar convosco pela fé que nos é comum a vós e a mim” (Rm 1,11s). Ao final de sua ampla reflexão formulou: “Contudo, vos escrevi, e em parte com certa ousadia, mais no sentido de avivar a vossa memória, em virtude da graça que  me foi concedida por Deus, de ser ministro de Cristo Jesus junto às nações, a serviço do evangelho de Deus...” (Rm 15,15-16). 

Aos coríntios não ocultou sua ansiedade: “Estive entre vós cheio de fraqueza, receio e tremor” (1Cor 2,3). Mas também estava disposto a reagir com muita energia contra a auto-suficiência de Corinto (2Cor 10,16), pois que entre eles atuou com os sinais do apóstolo: “paciência a toda prova, sinais milagrosos, prodígios e atos portentosos” (12,12). Mas quando se tratava de salvaguardar o “Evangelho de Cristo” não se poupava das palavras mais contundentes, como em Gl 1,8.9:  “Se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes, que seja consagrado à maldição.

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SÃO PAULO DE PERSEGUIDOR A PERSEGUIDO


3.3 – São Paulo de perseguidor a perseguido

Por várias vezes o livro dos Atos deixa ler alguns traços das disposições interiores de Paulo em relação aos seguidores de Jesus antes de ser “alcançado por Jesus Cristo”. A primeira menção está em 7,56.8,1. Para evitar de colocá-lo como participante ativo no apedrejamento do primeiro mártir, Estevão, ele é apresentado como alguém que aprova a punição violenta (8,1) a quem, supostamente, falava contra o templo e contra a Lei (cf. At 6,13). Em 8,3 ele “devastava” a Igreja. O verbo lumai,nomai (devastar) é forte e comporta a idéia de violência física e moral. Usado no imperfeito indica uma atividade continuada, não limitada a fatos isolados. 

As outras narrativas estão ligadas à experiência de Damasco. Em 9,1-2 as frases indicam comportamentos de virulência ainda maior do que “devastar a Igreja”. Assim se lê: “Saulo, respirando ainda ameaças de morte contra os discípulos do Senhor...pediu cartas para as sinagogas de Damasco”. A expressão “respirando ameaças” (evmpne,wn avpeilh/j) é caso único no Novo Testamento. Equivale a “estar repleto de” e sugere algo do comportamento animoso do futuro apóstolo. Ele estava inteiramente tomado pelo seu projeto de zelar pela Lei a qualquer custo e em qualquer lugar. Para tanto afiguravam-se-lhe como acertados os seus ânimos violentos. 

É por isso que nos outros dois relatos, expressos em forma de apologia, o Paulo lucano fala das motivações de fundo que suscitavam nele movimentos tão fortes perseguição. Em At 22,4 se lê: “Persegui de morte o este Caminho, prendendo e lançando à prisão homens e mulheres...”.  Por estas palavras vê-se que os gestos concretos eram prender e lançar à prisão; todavia os sentimentos e intenções visavam a destruição do assim chamado Caminho (“persegui de morte”). E tais escolhas se explicavam porque Paulo era “cheio de zelo por Deus” (22,3). 

Nesta mesma direção seguem as palavras ante o rei Agripa, sempre em tom de apologia: “Parecia-me necessário fazer muitas coisas contra o nome de Jesus...Quando eram mortos eu contribuía com o meu voto... por meio de torturas quis forçá-los a blasfemar; e, no excesso do meu furor, cheguei a persegui-los em cidades estrangeiras” (At 26,9-11). Para dizer que se lhe afigurava “necessário” hostilizar o nome de Jesus, Paulo emprega o verbo dei/, que no Novo Testamento é característico para aludir a um desígnio divino. Em confronto com os textos anteriores percebe-se que a atividade do perseguidor enquadra-se em uma espécie de “crescendo narrativo” nas diversas dimensões: no ódio, na extensão, na gravidade e variedade dos suplícios. 

Não Lucas, mas o próprio Paulo aborda sua refere a sua obstinação perseguidora. Em Gl 1,13, Paulo recorda a sua “conduta de outrora, no judaísmo, de como perseguia sobremaneira e devastava a Igreja de Deus” (o[ti kaqV u`perbolh.n evdi,wkon th.n evkklhsi,an tou/ qeou/ kai. evpo,rqoun auvth,n). Esta lembrança é feita em relação ao discurso apologético sobre a origem e fundamento do seu evangelho. Perseguir “sobremaneira” (kaqV u`perbolh.n) é uma expressão preposicional que ressalta o comportamento fanático durante a perseguição. É como se Paulo quisesse dizer “perseguia fanaticamente”. O verbo “devastar”, usado no imperfeito (evpo,rqoun) tem um sentido de ação progressiva e final, ou seja, Paulo perseguia fanaticamente a Igreja de Deus, intencionado a destruí-la. 

Um segundo texto da mão do próprio Paulo em que é mencionado o seu passado de perseguidor é Fl 3,6: “Quanto ao zelo, (era) perseguidor da Igreja”. Esta linha faz parte do mais preciso conjunto de informações sobre o histórico judaico do apóstolo. Paulo enaltece sua própria história. Ela consta de três qualidades congênitas (Fl 3,5: “do povo de Israel; da tribo de Benjamim; hebreu, filho de hebreus”), e outras três adquiridas (3,6: “quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível”). Aqui o perseguidor aparece sem especificações. Apenas mostra que é o zh/loj que determina e qualifica o papel de Paulo como perseguidor. As frases são sumárias, abreviadas. Mas não escondem uma personalidade excitada e impetuosa. Sua linguagem se aplaca, porém, no verso seguinte (v. 7: “...o que era para mim lucro, tive-o como perda, por amor de Cristo”). Com isso quer ele indicar que somente em Jesus Cristo sua vida alcançou um equilíbrio estável. 

Também em 1Cor 15,9 a menção de Paulo sobre o passado de perseguidor está matizada pela graça. O Senhor Ressuscitado aparecera também a ele. Por isso se reconhece como apóstolo, ainda que não digno, porque “perseguiu a Igreja de Deus”. Mas “pela graça de Deus sou o que sou” (v. 10). Neste caso a acentuação incide na nova condição pessoal que a eleição como apóstolo lhe agraciou. Se antes ele era “como um abortivo” (v.8) o encontro com o Senhor, ainda que perseguidor, fora algo tão extraordinário como uma criança, já morta, nascer para a vida. E o antigo perseguidor aderiu à graça a ponto de trabalhar “mais que todos eles” (v.10). 

Todas estas notícias acerca do vigor persecutório de Paulo estão inseridas em narrativas ou reflexões relativas à nova história, e ao novo homem, que começou a ser forjado a partir de Damasco. Mas a linguagem empregada indica que ele se empenhava por completo e estava totalmente absorto no que se tornara uma “atividade habitual”.  Todavia, para falar ao modo do próprio Paulo, em Damasco o Senhor se “revelou” a ele (Gl 1,12); deu-se a conhecer. E tal revelação estava orientada a constituir Paulo como o evangelizador dos gentios (1,16). Ao cristão de Damasco, Ananias, o Senhor insistiu: “Vai, porque este homem é um instrumento de minha escolha para levar o meu nome...Eu mesmo lhe mostrarei quanto lhe é preciso sofrer em favor do meu nome” (At 9,15-16). Conversão e chamado ao ministério estavam inseparavelmente unidos. 

Em termos concretos, para o perseguidor tudo aquilo significaria integrar na própria existência o destino do perseguido.   Paulo é discreto ao extremo em falar das vivências subjetivas daqueles dias de Damasco, mas o tempo mostrou que foi a mais esmagadora experiência de sua vida. A partir de então, avassalado por seu Senhor, ei-lo familiarizado com a existência do evangelizador perseguido. É justamente o que confessa em 2Cor 11,23-28, num confronto comparativo entre o seu ministério e o de seus adversários. Seu ministério tornou-se mais credível porque se destacou pelas “fadigas...prisões... açoites... cinco vezes os quarenta golpes menos um ... três vezes flagelado... uma vez apedrejado...”.

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SÃO PAULO E O SENTIDO TEOLÓGICO E EXISTENCIAL


3.2 – São Paulo e o seu sentido teológico e existencial

Mais de uma vez no seu epistolário Paulo faz menção daquela realidade surpreendente que o alcançou e o avassalou de um modo tal que alterou profunda e radicalmente o curso de sua vida. Mas em nenhum momento ele deixa vislumbrar traços psicológicos ou pormenores externos do que lhe sucedera. Tudo permanece sob as cortinas do silêncio. Quando escreve sobre o acontecido, já se vão aproximadamente vinte anos do fato. Mais do que recordação descritiva, após cuidadosa maturação, o apóstolo se ocupou em interpretar tudo sob o signo da intervenção direta e imediata de Deus. Ademais, ao referir aquele acontecimento extraordinariamente singular, ele o faz de um modo tal que seu discurso se entrelace intimamente com a exposição do seu Evangelho. Parece que o próprio Paulo quer ver relativizadas aquelas suas experiências individuais e psicológicas. Conta mais, para ele, que tudo aquilo seja visto nos quadros dos desígnios de Deus em vista do Evangelho de Jesus Cristo. Foi um evento de pura graça (1Cor 15,10).
                        
Escrevendo aos Gálatas Paulo indica qual era o conceito que, a partir do que experimentara em Damasco, ele tinha de si mesmo. Sublinha a iniciativa gratuita do Pai, a quem aprouve (euvdoke,w: comprazer-se; considerar bom) “separá-lo desde o seio materno” e o “chamou por sua graça” para que evangelizasse entre os gentios (1,15-16). Aquela foi a hora da gratuidade do seu chamado. A expressão “Desde o seio materno” relembra o chamado de Jeremias (Jr 1,5) e do Servo (Is 49,1.5). Desde Damasco a inteireza da vida do apóstolo recebera novo sentido e novo destino. A partir de então Paulo começava a reconhecer que não mais pertencia a si mesmo. Deus mesmo estava por trás de todos aqueles desdobramentos. E somente a partir de dEle era possível compreender tudo quanto lhe sucedera. A decisão soberana do Senhor se fazia conhecer somente naquele instante, mas era já um desígnio prefixado desde os primeiros instantes de sua existência. Por isso mesmo o “seu evangelho” não podia ser colocado em dúvida.
                        
Em 2Cor 4,6 Paulo alude ao mesmo fato de Damasco em termos de uma nova criação: “Do meio das trevas brilhe a luz! Foi Ele mesmo quem reluziu em nossos corações, para fazer brilhar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo”. Na primeira criação Deus fizera surgir a luz no caos primordial. Em Damasco Deus fizera surgir a luz no coração de Paulo, cujo brilho procede do encontro com Jesus Cristo. Daí em diante ele passou a “conhecer a glória de Deus”. Conexo a tal “conhecimento” está também a missão. 
                        
Em diálogo com os Filipenses indica que no caminho de Damasco “foi alcançado por Jesus Cristo” (Fl 3,12). Então aderiu a Ele. Sua história pessoal fora, a partir daquele momento, colocada sobre outros trilhos. Suas forças e energias visaram participar dos sofrimentos de Jesus Cristo e de sua ressurreição pois que fora encontrado pelo Ressuscitado (v. 11). A adesão apaixonada de Paulo desencadeou uma total mudança em sua vida. Sua linguagem forte retrata a intensidade da reviravolta: o que era “lucro” tornou-se perda. O que antes plenificava sua vida, o que considerava santo, pelo qual havia lutado com todas as suas forças desfigurou-se em “esterco” (3,7.8).
                        
Na realidade, a conversão desencadeada por aquele encontro redirecionou absolutamente a vida de um homem já profundamente religioso. O fariseu zeloso, que cultuava a Lei mosaica, na realidade estava voltado sobre si mesmo. Para alguém tão destacado no farisaísmo, mais do que seus coetâneos (Gl 1,14), Deus teria coroado os seus méritos. A observância plena e minudente da Lei fazia dele um homem com muitos “direitos” diante de Deus. Tratava-se, pois, de confiança em si mesmo, dito melhor, era auto-suficiência religiosa ou orgulho autocrata de quem acedia por suas próprias forças à salvação.
                        
Para um judeu de tantos brios religiosos, aferrado à Lei e seguro de sua fidelidade, o novo caminho requeria muita luta interior. Somente uma experiência muito intensa e muito forte poderia sustentar seu novo percurso. Quem antes era “maldito” porque fora “suspenso ao madeiro” (Gl 3,13) revelou-se como Salvador crucificado e ressuscitado. É a Ele que então Paulo entregou-se em obediência de fé. A única medida da verdade do homem era o dom de Deus revelado em Jesus Cristo. Por isso mesmo a vida do “alcançado pelo Senhor” recebeu uma outra expressão e sentido: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 3,20).
                        
Lendo com atenção os textos paulinos é possível reconhecer os traços psicológicos típicos do convertido: “Adesão total à nova causa e polêmica denúncia da falsidade da posição sustentada anteriormente; forte e inabalável consciência da coerência da escolha feita; segurança e coragem não obstante inúmeras adversidades e contestações. Fruto de uma descoberta pessoal, sua fé se apresenta vigorosa e cálida de amor. Ao mesmo tempo é intolerante e severo nos confrontos com os adversários”. Compromissos de conveniência e meias medidas não eram de sua têmpera.

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