QUEM FOI SANTO INÁCIO DE LOYOLA?


Diário Espiritual DE Santo Inácio de Loyola

            O Diário Espiritual de Santo Inácio nos convida a seguir, por mais de um ano (2 de fevereiro de 1544 a 27 de fevereiro de 1545), os movimentos mais secretos da alma de um santo. Mais felizes que o Pe. Gonçalves da Câmara, o confidente a quem Inácio recusou comunicá-lo, nós hoje podemos ler esse Diário que tanto mais transtorna nossos conceitos quanto mais esclarece, com luz inesperada, a fisionomia do autor dos Exercícios Espirituais.
            Diário? A palavra é muito imprópria. “Sentimentos internos de alma” escreveu alguém na página de título do autógrafo. Com efeito, não se trata de um diário, onde se escreveriam acontecimentos para alegria dos biógrafos, mas desta trama frágil e quase inapreensível que tenta, por meio das palavras, fixar os movimentos que o Espírito de Deus imprime a uma alma, o vestígio de sua passagem, misterioso e desconcertante como o vento, a palpitação da vida divina através da sensibilidade e vontade humana.
          “A maneira que ele empregava ao escrever As Constituições da Companhia de Jesus, era celebrar cada dia a missa e apresentar a Deus o ponto tratado, tendo oração sobre ele: e sempre fazia oração e celebrava a missa com lágrimas” (Autobiografia 101). No curso dos 13 meses em que se entende o fragmento do Diário que no ficou, temos muitos exemplos desta meditação incessante, erguida para Deus como questão e oblação, para se mover depois como ocasião e ação (M. Giuliani, S. J. Introd. PP. 9-10).

introdução

            Os primeiros Jesuítas, reunidos em Paris por Santo Inácio, tendo acabado seus estudos na Sorbona, vieram para a Itália, com a intenção de partirem de Veneza para a Terra Santa, conforme seu voto. Não o podendo realizar, por falta de navio naquele ano de 1537-1538, apresentaram-se ao Papa Paulo III para que os empregasse no serviço de Deus, segundo a promessa feita.
            Em Roma deliberaram e resolveram que continuariam unidos e para isso constituíram Ordem Religiosa, sob a obediência de um superior. Determinaram em conjunto os pontos essenciais do novo Instituto, que chamariam Companhia de Jesus. Aprovado pelo Papa em 1540, procederam à eleição do Superior Geral, resultando eleito Inácio de Loyola.
            Não sendo possível reter o grupo em Roma, porque o Papa os destinava a diversas missões na Europa e fora dela, nomearam Inácio e um dos primeiros companheiros, João Coduri, para continuarem o trabalho de redação das Constituições. Em 1542 falecia João Coduri, e Inácio continuava sozinho essa tarefa.


1ª Descrição do Códice e sua História

Em princípios de 1544, estudava Santo Inácio qual deveria ser a pobreza da Companhia de Jesus, ponto já visto rapidamente pelo grupo. Este período se caracterizou por grandes graças e comunicações celestes, que ele descreveu, dia por dia. Num 1º caderno, que vai de 2 de fevereiro a 12 de março de 1544: são 40 dias, consignados em 14 folhas ou 28 páginas autógrafas, sobre sentimentos íntimos na questão da pobreza das igrejas da Companhia, a respeito de poderem ter rendas fixas ou não. Num 2º caderno vai de 13 de março a 27 de fevereiro de 1545: são 12 folhas ou 24 páginas também autógrafas, que apontam, com muito mais brevidade, quase um ano inteiro de movimentos de alma, sobre diversas matérias das mesmas Constituições, que Inácio continuava a estudar e escrever. 1ª questão era sobre as Missões, a que o Papa e o Superior da Companhia podem mandar os Jesuítas. Nela o Santo se demorou dois meses, de 17 de março a 17 de maio.

Isto que chamamos Diário, que começa e termina abruptamente, abrangia certamente outros cadernos e se estendia por outros anos, porque o maço que Inácio mostrou ao Pe. Luiz Gonçalves da Câmara em 1555 era bastante grande. Perderam-se ou o Santo os destruiu, pois não se destinavam ao público, nem sequer ao restrito da sua Companhia, mas eram anotações íntimas, um memorial das graças recebidas de Deus, que queria ter diante dos olhos para as agradecer continuamente à divina bondade.

2ª conteúdo do Códice

O Diário é o escrito que mais profundamente nos introduz na alma de Santo Inácio. Só se fala das moções de Deus em favor de seu espiritual. Começa por colocar-nos diante dos olhos uma eleição no método dos exercícios Espirituais, não em teoria, mas na prática: como ele é levado por Deus a eleger uma pobreza radical também para as Igrejas da Companhia. Observa o que prescreve seu livro dos Exercícios sobre os dois tempos de eleição: usa da razão humana para descobrir os motivos que o inclinarão para tal pobreza e seus contrários, e espera a iluminação de Deus na oração, principalmente eucarística, que virá dissipar as últimas dúvidas sobre a escolha feita. Conserva-se o escrito autógrafo, em que Santo Inácio enumerou as razões pró e contra essa pobreza, que colocamos em apêndice nesta edição.

Põem-se em jogo todas as faculdades humanas, a inteligência, a vontade, a imaginação e a sensibilidade, numa introspecção atenta e penetrante; e no tempo da oração, usa-se da intercessão da SSm.ª Virgem e de Jesus homem, para se chegar ao Pai e n’Ele às Pessoas divinas em sua essência e relações íntimas.

O Diário proporcionou a seus leitores a maior surpresa na descoberta de uma mística singular, cujos segredos não foram ainda suficientemente estudados. Enquanto o livro dos Exercícios Espirituais é um tratado prático de ascética, o Diário nos desvenda o fruto mais precioso desse esforço, numa elevação concedida gratuitamente por Deus ao mais alto grau de união mística com Trindade Santíssima. Assinalam-se como pontos essenciais da mística inaciana, a visão simples e intuitiva das coisas celestes.

São três as suas maiores características:

v É uma mística Trinitária, em que são revelados a Inácio os grandes mistérios da unidade e trindade de Deus.

v É uma mística Eucarística, tudo se realiza em torno da Eucaristia, nas orações preparatórias do despertar, do quarto e da capela antes da missa, durante o Sacrifício, depois dele na ação de graças e mesmo durante o dia como um prolongamento eucarístico.

v É uma mística de serviço de amor e não tanto de união de amor, pois o Santo não desfruta simplesmente de Deus possuído, mas com Ele possuído se volta inteiramente em favor dos homens, imagens de Deus, amando-os n’Ele para os salvar.

A vida de oração de Santo Inácio

DE NOSSA SENHORA - Sábado [2 de fevereiro]. Abundância de devoção na Missa, lágrimas e crescida confiança em Nossa Senhora. Então e por todo o dia, mais inclinado a não ter nada.

Ø Comentário: Às anotações de cada dia o Santo costuma antepor a indicação da Missa celebrada, ora de Nossa Senhora, ora do Nome de Jesus, ora da SSma. Trindade, ora do dia do Domingo. Toda a sua vida mística gira em torno da Eucaristia. (Larr. BAC. 683).

DA TRINDADE - Quinta-feira [7 de fevereiro]. Antes da Missa, muita abundância de devoção e lágrimas. Por todo o dia, calor e devoção notável (até a noite). Sempre mais firme e movido a não ter nada. Ao tempo da missa, impressão de ter um acesso notável, com bmuita devoção e moção interior, para rogar ao Pai; parecia-me que os dois Mediadores, tinham intercedido, com algum sinal de vê-lo.

Ø Comentário: É o Tríplice colóquio tão comum nos Exercícios: pela Mãe ir ao Filho, e pelo Filho ao Pai. Um traço vertical grosso ou dois, ao depois, correspondem a um sinal de S. Inácio posto á margem do manuscrito (duas linhas verticais cruzadas por uma horizontal); parece indicar visão sobrenatural (Cod. MHSJ s. 3,88).

DE JESUS - Sexta-feira [8 de fevereiro]. Após notável devoção, fiquei em oração e lágrimas. Desde a preparação e durante a Missa, muita abundância de devoção e igualmente lágrimas, parando nas palavras, quando era possível. Sempre no desejo de não ter nada.

Logo depois da Missa, devoção, não sem lágrimas. Examinei as eleições por hora e meia ou mais. Apresentava-me o que me parecia melhor por razões ou por maior moção da vontade, a saber, não ter renda alguma. Querendo apresentar ao Pai, por mediação e rogos da Mãe e do Filho, fiz primeiro oração a ela, para que me ajudasse com seu Filho e com o Pai. Depois orei ao Filho me ajudasse com o Pai em companhia da Mãe. Então senti em mim um ir ou ser levado perante o Pai, e neste andar, levantarem-se-me os cabelos e mover-se todo o corpo, à maneira de ardor notabilíssimo. Como consequência disso, lágrimas e devoção intensíssima.

Ø Comentário: “ter alguma parte de renda”, neste caso, “lhe causava confusão”. É quase a mesma frase de Santa Teresa: “Outra vez me disse o Senhor que na renda estava a confusão, e outras coisas em louvor da pobreza, assegurando-me que não lhe faltaria o necessário a quem o servia”. (Autobiogr. 35 BMC I, 289) apud Larr. (BAC 24, 685).

DO ESPÍRITO SANTO - Segunda-feira [11 de fevereiro]. Em meio da oração costumada, sem eleições, me pus a oferecer ou rogar a Deus Nosso Senhor, que a oblação passada fosse por sua divina Majestade. Bastante devoção e lágrimas. Depois, um espaço adiante, colóquios com o Espírito Santo para celebrar sua missa, com a mesma devoção e lágrimas. Parecia-me vê-lo e senti-lo em caridade espessa ou em cor de chama de fogo, de modo insólito. Em todo isso me confirmava a eleição feita.

Ø Comentário: Esta anotação do Diário nos revela o papel que representa a teologia do Espírito Santo na vida interior trinitária de S. Inácio (Larr. 689). Sua manifestação firma a eleição feita e parece completá-la. Mas o Santo não se dá por satisfeito, enquanto não se declaram as três Pessoas divinas e assim continua na expectativa (Giul. 52).

Em seguida, para refletir e entrar pelas eleições decidido, tomei a lista com as razões escritas, para discorrer por elas, fazendo oração a Nossa Senhora, depois ao Filho e ao Pai, para que me deem seu Espírito, para refletir e para discernir. Embora falasse já como de assunto acabado, sentindo bastante devoção e certas inteligências com certa clareza de vista, me assentei, olhando de relance o ter todo, em parte ou nada, e me vinha o desejo de não considerar mais razões algumas. Nisto vieram-me outras inteligências, a saber como o Filho antes enviou os Apóstolos a pregar em pobreza; e depois, o Espírito Santo, dando seu espírito e línguas, os confirmou: assim o Pai e o Filho, enviando o Espírito Santo, todas as três Pessoas confirmaram tal missão.

Com isto entrou em mim maior devoção, e foi-se-me todo desejo de considerar mais este assunto. Com lágrimas e soluços, de joelhos, fiz a oblação de não ter nada ao Pai. Tantas lágrimas pelo rosto abaixo e soluços, de joelhos, ao fazer a oração e depois, que quase não me pude levantar, de tantos soluços e lágrimas da devoção e da graça que recebia. Finalmente me levantei, e levantando, acompanhava-me ainda a devoção com os soluços. Eles me vinham, por ter feito a oblação de não ter nada, dando-a por confirmada e válida etc.

Depois, daí a um pedaço, andando e recordando-me do que passara, nova moção interior para a devoção e lágrimas. Daí a outro pedaço, ao sair para a missa, antes da breve oração, devoção intensa e lágrimas, ao sentir ou ver de certo modo o Espírito Santo, e o assunto da eleição como acabado. Não pude ver nem sentir a nenhuma das outras Pessoas divinas. Em seguida, na capela, antes da missa e durante ela, abundância de devoção e lágrimas. Depois, grande tranquilidade e segurança de alma, como quem cansado descansa com muito repouso. Vontade de não buscar nem querer coisa alguma, considerando o assunto por acabado, só aceitando dar graças, por devoção ao Pai e à missa da Trindade, como antes pensara celebrá-la terça-feira de manhã.

Ø Comentário: Nesta sua experiência Inácio menciona até oito vezes as lágrimas deste dia, acompanhada duas vezes de soluços. Confirmada a eleição, só pensa em continuar para dar graças a Deus, no dia seguinte, como resolvera, “por devoção à SSma. Trindade e à sua Missa.

DE NOSSA SENHORA NO TEMPLO: SIMEÃO – Quinta-feira [15 de fevereiro]. À primeira oração, ao nomear o Pai Eterno, vinha-me uma sensível doçura interior e se prolongava, não sem moção de lágrimas. Mais adiante, bastante devoção, tornando-se até o fim muito maior, sem se descobrirem os Mediadores nem as Pessoas Divinas. Depois, ao sair para a Missa, começando a oração, sentia e representava-me Nossa Senhora, e quanto havia faltado o dia passado, não sem moção de alma e de lágrimas. Parecia-me ter envergonhado a Nossa Senhora em rogar por mim tantas vezes por tantas minhas, tanto que se me escondia Nossa Senhora e não encontrava devoção nem nela nem mais acima. Daí a pouco, como não achava Nossa Senhora, busquei acima e veio-me grande moção de lágrimas e soluços, com certa visão e sentimento de que o Pai celestial se me mostrava propício e doce, a tal ponto que dava sinal de lhe agradar fosse rogado por Nossa Senhora, a qual eu não podia ver.
            
Ao preparar o altar, depois de paramentado e na missa, com as muito grandes moções interiores, abundantes e muito intensas lágrimas e soluços, perdia muitas vezes a fala. Igualmente, depois de terminada a missa, em muita parte deste tempo da Missa, de sua preparação e após, sentia muito e via a Nossa Senhora muito propícia diante do Pai, tanto que nas orações ao Pai, ao Filho e no momento da consagração, não podia deixar de a sentir e ver, como quem é parte ou porta de tanta graça que em espírito sentia. Ao consagrar, fazia-me compreender que sua carne estava na do Filho, com tantas inteligências que não se poderia escrever. Sem duvidar da primeira oblação feita.

Ø Comentário: Missa da festa da Purificação de Nossa Senhora ou da Apresentação do Menino Jesus ao Templo, quando o santo velho Simeão o tomou nos braços: celebra-se a 2 de fev. Contemplação para alcançar o amor: “ver como estou diante de Deus Nosso Senhor, dos Anjos e dos Santos a intercederem por mim” (EE.EE. 232). Aqui como em outras partes, note-se a ordem de suas ações cotidianas: despertar, oração na cama, levantar-se e vestir-se, nova oração chamada do quarto ou câmara, sair do quarto para a capela, preparar o altar, oração de preparação para a missa, paramentar-se entre breves orações, ir para o altar e começar a missa.

Missa do dia – Domingo [24 de fevereiro]. Na oração costumada, do princípio ao fim inclusive, assistência de graça muito interna e suave e cheia de devoção calorosa e muito doce. No preparar o altar e no paramentar-me, representação do nome de Jesus com muito amor. Confirmação e crescida vontade de segui-lo, lágrimas e soluços. Ao longo de toda a missa, muito grande devoção e muitas lágrimas, perdendo a fala bastantes vezes. Todas as devoções e sentimentos terminavam em Jesus, sem poder-me aplicar às outras Pessoas, senão quase à primeira Pessoa, à que era Pai de tal Filho. Sobre isto vinham-me réplicas espirituais: “De que modo Pai, de que modo Filho!”.

Confirmação de Jesus
Acabada a Missa, na oração, fiquei-me com esse santo Filho. Como eu desejara a confirmação pela SSm.ª Trindade, sentia que me era comunicada por Jesus, o qual se mostrava a mim e me dava tanta força interior e segurança de confirmação que não temia o que viria. Acudindo-me à mente suplicar a Jesus me alcançasse perdão da SSm.ª Trindade, vinha-me devoção crescida, com lágrimas soluços e esperança de alcançar a graça, achando-me tão decidido e confirmado para o diante.

Depois, junto a braseiro, nova representação de Jesus, com muita devoção emoção de lágrimas. Em seguida, andando pela rua, representação de Jesus com grandes moções de lágrimas. Depois que falei a Carpi, na volta, igualmente sentimento de muita devoção. Após o comer, principalmente depois que passei pela porta do Vigário, em casa de Trana, sentimento ou visão de Jesus, muitas moções interiores e muitas lágrimas.
Em todo este tempo, com tanto calor e visitação interior rogava e replicava a Jesus me Alcançasse perdão da SSm.ª Trindade, continuando a sentir em mim uma confiança grande de o impetrar. Nestes tempos havia em mim tanto amor em sentir ou ver Jesus que me parecia já não poder vir coisa capaz de apartar-me dele, nem de fazer-me duvidar a respeito das graças ou confirmação recebida.

Ø Comentário: Missa do domingo da Quinquagésimo, 50 dias antes da Páscoa e seu oitavário. À margem Inácio escreve de novo Confirmação de Jesus, como nome da Companhia.

De são mateus – Segunda-feira [25 de Fevereiro]. A oração primeira, com bastante devoção; mais ao diante, com muito calor e assistência de muita graça. Embora, de minha parte e por alguns impedimentos que me vinham de outros, achasse facilidade para me distrair, não procurava nem buscava confirmação, mas desejava reconciliação com as três Pessoas divinas.

Depois, paramentado para celebrar, não sabendo a quem me encomendar ou por onde começar, Jesus se me comunica, e acode-me à mente isto: “Quero seguir adiante” e assim entrei na confissão: Confiteor Deo, como Jesus dizia no Evangelho do dia: Confiteor tibi etc. Com isto, entrando mais adiante na confissão, nova devoção, não sem moções a lágrimas. Avançando na missa, com muita devoção, calor e lágrimas, perdia algumas vezes a fala. Nas orações ao Pai me parecia que Jesus apresentava ou acompanhava as que eu pronunciava diante do Pai, com sentimento ou visão que não se pode explicar.

Acabada a missa, desejo de reconciliar-me com a SSm.ª Trindade. Suplicava isto a Jesus, não sem lágrimas e soluços, assegurando-me não ter necessidade alguma de confirmação, não a pedindo nem a sentindo, nem tão pouco a de celebrar missas para este efeito, mas tão só de reconciliar-me.

Ø Comentário: Oração que costumava fazer antes de levantar-se. É notável que após 18 de fevereiro Nossa Senhora não apareça mais até 7 de março. Depois que foi confirmado por Jesus, Inácio parece achegar-se a Ele sem a mediação de Maria, que ocupava antes lugar tão grande e à qual o próprio Pai o remetia. Quando procura a quem se encomendar, ele se volta de preferência a Jesus como que espontaneamente. (Giul. 73). Sempre que se fala de Jesus com respeito à SSm.ª Trindade, Inácio o entende em sua humanidade. Quando quer acentuar a divindade, usa em geral a palavra Filho. Assim S. Paulo “Porque há um só Deus e um só mediador igualmente de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus, que se deu a si mesmo como preço de resgate por todos” (1 Tim. 2,5) (Larr. 719).

Das chagas – Quinta-feira [29 de fevereiro]. Na oração costumada, do princípio até o fim inclusive, muito grande devoção e muito lúcida, cobrindo os pecados e não deixando pensar neles. Fora de casa, na Igreja, antes da missa, visão da página celeste ou do Senhor dela, à maneira de inteligência de três Pessoas; e no Pai, a segunda e a terceira. Na missa, de tempos a tempos, bastante devoção, sem inteligência nem moções algumas a lágrimas. Acabada a missa, visão igualmente da pátria ou do Senhor dela, de modo não distinto, depois mais claro, conforme outras vezes sucede, ora mais ou menos. O dia todo, especial devoção.

Ø Comentário: Missa das Cinco Chagas de Cristo, que se celebrava então na VI.ª feira, depois da IV.ª feira de cinzas, e mais tarde se celebrou na VI.ª feira após o 3.º domingo da quaresma.
Conclusão

            O livro, (Diário) que na 1.ª folha em branco recebeu de mão desconhecida o título Interna mentis sensa = Sentimentos internos de Alma, e na última folha também em branco “Consolações e visitas espirituais de Nosso Pai Santo Inácio”, leva-nos a compreender, em exemplo privilegiado, o que pretendem obter os Exercícios pelo exame das orações, consolações e afetos: volta sobre si mesmo, mas na oração e para captar a ação de Deus. Por uma tal oração, semelhante ao borbulhar de fonte que se alimenta nas profundezas mais secretas, onde a alma não atinge nada mais senão a presença do Senhor, é preciso dizer que todos os instantes de um destino humano ficam inteiramente transformados.
            “O movimento da oração torna-se tão fácil, tão natural, tão tranquilo como o pulsar do coração ou o ritmo da respiração. Ele acompanha e governa o desabrochar da sensibilidade, regula e esclarece a reflexão, sustenta a vontade, mantendo-a tanto firme em seu propósito como aberta a todas as inspirações. O diário de Inácio nos ficou como uma dessas testemunhas providenciais, graças ás quais adivinhamos até que ponto a oração pode ser uma vida, interior à nossa vida”. (Giul. p. 20).
       “O Pe. De Guibert mostrou que a vida mística inaciana não poderia enquadrar-se nem na mística especulativa, cujo tipo acabado é São João da Cruz, nem na mística afetiva, à maneira de São Francisco de Assis, mas tem lugar “numa mística do serviço de Deus por amor”. Fica pois por explicar esta estranha aliança de passividade, sem a qual não há vida mística, e de atividade, sem a qual não há serviço, pois o serviço inaciano supõe a movimentação de todas as faculdades humanas.
            O Diário descreve, ao correr dos dias, o retrato interior de um santo em contínua receptividade das moções divinas, vivendo com incrível intensidade o drama do acesso ao mistério, sem nada perder de sua lucidez, domínio e força de ação. Parece que toda a sua passividade consiste em se aniquilar no ato do acatamento, para reencontrar, mais puras e mais retas, as forças de sua inteligência e de sua vontade. A abnegação é então a tal ponto radical que não é mais ele que serve a Deus, mas Deus que se serve dele.
            Por fim, o Apóstolo não tem senão um sonho, o de morrer de amor por seu Amado, e não cessa de morrer cumprindo a todo o instante a tarefa para a qual é irresistivelmente conduzido. Mas é então que ele recebe a confirmação, como selo vindo de Deus: sua morte mística tornou-se o princípio de uma vida nova que o liberta para outras tarefas. E isto se irá repetindo, ao ritmo da graça, incansavelmente, até que chegue a confirmação definitiva, para além do último suspiro e da morte física, na “visão da pátria ou de seu Senhor” (Giul. pp. 35-36).

Referência:
Diário Espiritual de Santo Inácio de Loyola – Edições Loyola – São Paulo – Brasil – 1977.

FIQUEM NA PAZ DE DEUS!
SEMINARISTA SEVERINO DA SILVA.

QUEM FOI SANTO ATANÁSIO?


A Vida
Santo Atanásio foi, simultaneamente, o Bispo mais amado e o mais odiado e perseguido do seu tempo. Nasceu provavelmente no ano 295 e faleceu por volta de 373. Para os seus defensores, Atanásio era a garantia da ortodoxia católica, o salvador da Fé, um autêntico sucessor dos Apóstolos; para os seus adversários, Atanásio era um orgulhoso, teimoso, intransigente, rebelde, insolente inimigo da paz e da concórdia entre os cristãos.
Para salvar a fé na divindade de Cristo, Santo Atanásio sofreu calúnias, juízos iníquos, perigo de morte, cinco desterros durante 17 anos, ódios de muitos bispos e dos imperadores filiados à heresia, e finalmente a “excomunhão” pelo Papa Libério. Contudo a Igreja proclamou-o santo, Padre da Igreja, Doutor e salvador da fé católica. A história reconhece que, sem a resistência e os sofrimentos heróicos de Santo Atanásio e dos seus companheiros bispos e sacerdotes, assim como do povo fiel, a fé católica teria naufragado no século IV.
Este autêntico protagonista da tradição cristã, poucos anos depois da sua morte, foi celebrado como "a coluna da Igreja" pelo grande teólogo e Bispo de Constantinopla Gregório Nazianzeno (Discursos 21, 26), e foi sempre considerado como um modelo de ortodoxia, tanto no Oriente como no Ocidente. Portanto, não foi por acaso que Gian Lorenzo Bernini colocou uma sua estátua entre a dos quatro santos Doutores da Igreja oriental e ocidental juntamente com Ambrósio, João Crisóstomo e Agostinho que na maravilhosa abside da Basílica vaticana circundam a Cátedra de São Pedro.  
As Obras
A obra doutrinal mais famosa do santo Bispo alexandrino é o tratado Sobre a encarnação do Verbo, o Logos divino que se fez carne tornando-se como nós para a nossa salvação. Atanásio diz nesta obra, com uma afirmação que se tornou justamente célebre, que o Verbo de Deus "se fez homem para que nos tornássemos Deus; ele fez-se visível no corpo para que tivéssemos uma idéia do Pai invisível, e ele próprio suportou a violência dos homens para que nós herdássemos a incorruptibilidade" (54, 3). De fato, com a sua ressurreição o Senhor fez desaparecer a morte como se fosse "palha no fogo" (8, 4). A idéia fundamental de toda a luta teológica de Santo Atanásio era precisamente a de que Deus é acessível. Não é um Deus secundário, é o Deus verdadeiro, e através da nossa comunhão com Cristo podemos unir-nos realmente a Deus. Ele tornou-se realmente "Deus conosco".  
Entre as obras deste grande Padre da Igreja que em boa parte permanecem ligadas às vicissitudes da crise ariana recordamos depois as quatro cartas que ele enviou ao amigo Serapião, Bispo de Thmuis, sobre a divindade do Espírito Santo, que foi afirmada com determinação, e cerca de trinta cartas "festivas", dirigidas no início de cada ano às Igrejas e aos mosteiros do Egito para indicar a data da festa de Páscoa, mas sobretudo para garantir os vínculos entre os fiéis, fortalecendo a sua fé e preparando-os para essa grande solenidade.  
Por fim Atanásio é também autor de textos meditativos sobre os Salmos, depois muito difundidos e sobretudo de uma obra que constitui o best seller da antiga literatura cristã: a Vida de Antão, isto é, a biografia do abade Santo Antão, escrita pouco depois da morte deste santo, precisamente enquanto o Bispo de Alexandria, exilado, vivia com os monges do deserto egípcio. Atanásio foi amigo do grande eremita, a ponto que recebeu uma das duas peles de ovelha deixadas por Antão como sua herança, juntamente com a capa que o próprio Bispo de Alexandria lhe tinha oferecido. Tendo-se tornado depressa muito popular, traduzida quase imediatamente em latim por duas vezes e depois em diversas línguas orientais, a biografia exemplar desta figura querida à tradição contribuiu muito para a difusão do monaquismo, no Oriente e no Ocidente.  
Defensor da Fé, pai da Ortodoxia
Atanásio foi sem dúvida um dos Padres da Igreja antiga mais importantes e venerados. Mas sobretudo este grande santo é o apaixonado teólogo da encarnação do Logos, o Verbo de Deus, que como diz o prólogo do quarto Evangelho "se fez carne e veio habitar entre nós" (Jo 1, 14). 
Precisamente por este motivo Atanásio foi também o mais importante e tenaz adversário da heresia ariana, que então ameaçava a fé em Cristo, reduzido a uma criatura "intermediária" entre Deus e o homem, segundo uma tendência recorrente na história e que vemos concretizada de diversas formas também hoje. Nascido provavelmente em Alexandria, no Egito, por volta do ano 300, Atanásio recebeu uma boa educação antes de se tornar diácono e secretário do Bispo da metrópole egípcia, Alexandre. Estreito colaborador do seu Bispo, o jovem eclesiástico participou com ele no Concílio de Nicéia, o primeiro de caráter ecumênico, convocado pelo imperador Constantino em Maio de 325 para garantir a unidade da Igreja. Os Padres nicenos puderam assim enfrentar várias questões, e principalmente o grave problema causado alguns anos antes pela pregação do presbítero alexandrino Ário.  

Ário e o Concílio de Nicéia
Ário (260-336), influente pároco de Alexandria, no Egito, dizia que Cristo era a primeira das criaturas de Deus e, como todas as demais, tirada do nada. Por ser a primeira criatura, chamava-se-Lhe Filho de Deus, mas não Deus verdadeiro, igual ao Pai. Era uma criatura divinizada, mediante a qual Deus criou as demais coisas, inclusive o Espírito Santo. Desse modo, por meio da defesa e da divulgação desta doutrina, a fé católica estava ameaçada. Atacava a verdadeira natureza do Cristianismo, ao atribuir a Redenção a um deus que não era verdadeiro Deus e que, por isso mesmo, era incapaz de redimir a humanidade. Assim, a fé era despojada de seu caráter essencial, posto que o Logos não seria verdadeiro Deus, mas um Deus criado, um ser "intermediário" entre Deus e o homem e assim o verdadeiro Deus permanecia sempre inacessível para nós.
Os Bispos reunidos em Nicéia responderam preparando e fixando o "Símbolo de fé" que, completado mais tarde pelo primeiro Concílio de Constantinopla, permaneceu na tradição das diversas confissões cristãs e na liturgia como o Credo niceno-constantinopolitano. Neste texto fundamental que expressa a fé da Igreja indivisa, e que recitamos também hoje, todos os domingos, na Celebração eucarística encontra-se a palavra grega homooúsios, em latim consubstantialis: ele pretende indicar que o Filho, o logos, é "da mesma substância do Pai, é Deus de Deus, é a sua substância, e assim é posta em realce a plena divindade do Filho, que tinha sido negada pelos arianos.  
Tendo falecido o Bispo Alexandre, Atanásio tornou-se, em 328, seu sucessor como Bispo de Alexandria, e logo depois demonstrou-se decidido a recusar qualquer compromisso em relação às teorias arianas condenadas pelo Concílio niceno. A sua intransigência, tenaz e por vezes muito dura, mesmo se necessária, contra quantos se tinham oposto à sua eleição episcopal e sobretudo contra os adversários do Símbolo niceno, atraiu a implacável hostilidade dos arianos e dos filo-arianos. Apesar do inequívoco êxito do Concílio, que tinha afirmado com clareza que o Filho é da mesma substância do Pai, pouco depois destas idéias erradas voltaram a prevalecer nesta situação até Ário foi reabilitado e foram defendidas por motivos políticos pelo próprio imperador Constantino e depois pelo seu filho Constâncio II. Ele, aliás, que não se interessava tanto pela verdade teológica como pela unidade do Império e dos seus problemas políticos, pretendia politizar a fé, tornando-a mais acessível segundo a sua opinião a todos os seus súbditos no Império.  
A crise ariana, que se pensava estar resolvida em Nicéia, continuou por decênios, com vicissitudes difíceis e divisões dolorosas na Igreja. E por cinco vezes durante um trintênio, entre 336 e 366 Atanásio foi obrigado a abandonar a sua cidade, transcorrendo 17 anos no exílio e sofrendo pela fé. Mas durante as suas forçadas ausências de Alexandria, o Bispo teve a oportunidade de defender e difundir no Ocidente, primeiro em Trier e depois em Roma, a fé nicena e também os ideais do monaquismo, abraçados no Egito pelo grande eremita Antão com uma opção de vida à qual Atanásio sempre esteve próximo. Santo Antão, com a sua força espiritual, era a pessoa mais importante na defesa da fé de Santo Atanásio. Insediado de novo e definitivamente na sua sede, o Bispo de Alexandria pôde dedicar-se à pacificação religiosa e à reorganização das comunidades cristãs. Faleceu a 2 de Maio de 373, dia em que celebramos a sua memória litúrgica.
FIQUEM NA PAZ DE DEUS!
SEMINARISTA SEVERINO DA SILVA.

QUEM FOI SÃO JOÃO MARIA VIANNEY? PARTE 2


INTRODUÇÃO

            Em uma pequena aldeia. A Vila de Ars, ao norte de Lyon, na França, na época com duzentos e trinta habitantes, começou a atrair uma multidão de visitantes. Por que tantas pessoas iam a essa vila? Para verem o belo ensinamento e vida dedicada do padre João Maria Vianney.
            Tinham sempre um objetivo ao chegar em Ars:  ver o cura e confessar-se com ele,  e se esperando longas horas ou até a noite inteira. Homem de oração e exemplo pastoral, não era um grande argumentador, mas amava muito o seu ministério e se doava por inteiro ao serviço, sendo o seu exemplo e sua palavra, fazendo dessa pequena aldeia uma comunidade fervorosa e exemplar.
            Estimado pelos moradores de seu vilarejo, com uma fama que ultrapassou Ars, João Maria Vianney tornou-se um grande padre, exemplo e testemunho, em que todo o seu ministério concentra-se numa fé autêntica, no amor ao evangelho, na Eucaristia e na penitência, tornando-se um grande confessor.
            Mesmo existindo e encontrando dificuldades, soube perceber no seu amor incondicional por Deus, o seu remédio e, assim, a palavra de Deus tornou-se sempre “lâmpada e luz” para o seu serviço pastoral.

1. A ORAÇÃO

Percebemos o valor da oração, meditação, quando nos deparamos com o próprio Jesus, pois Cristo vivia sempre em unidade com o Pai. São João Vianney recorria sempre à oração, entrava na oração de Jesus, fazendo-se assim um discípulo de seu mestre.
São João Maria Vianney sempre recorreu à oração. Não só tinha um simples diálogo diante do Santíssimo Sacramento, mas mostrou-se um verdadeiro homem interior, que podia viver segundo a ação do Espírito Santo. Ele ensinava que esse caminho interior deveria ser feito por todos, não para anular um acontecimento ou mudá-lo, mas para ter Deus sempre presente na vida.
A sua ação no dia-a-dia era sempre abastecida por tantas vigílias que fez várias vezes, para preparar-se, assumir e enfrentar a missão de apascentar, muitas vezes achando-se indigno, mas que sua oração, endereçada a Jesus Cristo, o fortalecia nessa relação espiritual. Impressionante o fato de que todos os dias, a começar de madrugada, antes de iniciar os seus trabalhos diários, de entrar em contato com o povo de Ars, sua atitude de homem de oração demonstra um discernimento sério, frente á vocação escolhida e que tanto amou.
Ele discerniu bem, foi orientado nesse encontro pessoal com Cristo a fazer da vida pastoral não uma rotina, mas sua oração o levou a escolher o melhor para aquele povo simples daquela aldeia. Ao retirar-se, São João Maria Vianney despertou também a vontade do povo, ensinou o povo a encontrar-se com Jesus Cristo. Fez aquelas simples pessoas verem que através do silêncio Deus se faz presente.
Percebemos assim, que como Jesus era o enviado do Pai, Ele que muitas vezes se encontrava com o Pai através da oração, onde dizia “o Pai e eu somos um” (Jo, 10, 30), São João Maria zelava por esse encontro com Cristo, participando da oração do povo. Ele dava ação de graças e o seu louvor através do seu semblante simples, mas que transmitiu muito bem os frutos da oração, acolhendo a ação do Espírito Santo, descobrindo esse amor de Deus por nós através de seu filho. Fazendo o mesmo chamado a Samuel: “Veio Iahweh e ficou ali presente. Chamou, como das outras vezes: ‘Samuel!’, e Samuel respondeu: ‘Fala, pois teu servo ouve’” (1Sm 3, 10).


2. A Palavra de Deus

            São João Maria Vianney realizou de maneira tão exemplar essa união importantíssima: oração e Palavra de Deus, em que sua oração pessoal diante do Santíssimo Sacramento com a Palavra proclamada, onde o diálogo íntimo, com a escuta da Palavra, se dá a abertura do coração, tornando-se sempre “lâmpada e luz” para o seu serviço pastoral.
            O que o levou a exercer essa união foi o grande amor que ele tinha a Deus, não entendendo, às vezes, por que muitas pessoas não “ardessem” por esse amor. Ele percebia que muitos viviam afastados de Deus por causa do pecado, sendo a ternura de Deus infinita. Apoiava-se sempre na misericórdia de Deus, condenando sempre o pecado, mas a bondade de Deus e seu amor era oferecido a todos. Liberava em suas simples palavras o que meditava em oração, revelando o íntimo de seu coração.
            Sempre esteve nesse caminho, deixando transparecer,  em suas pregações, o modo como todos deveriam se comportar, como Cristo, onde a vida deve sempre vir dos ensinamentos da Palavra de Deus.
            Não chegou a ser um grande orador, mas tornou-se um testemunho humilde do Evangelho, apaixonado, convicto e convincente. Dizia que a Palavra de Deus era o meio mais eficaz e entrava no coração dos irmãos, tornando-se um caminho para alcançar a unidade e aumentar a fé. Quando parecia estar cansado ou queriam obriga-lo a repousar, surpreendia dizendo: “quando se trata de falar do bom Deus, ainda tenho muitas forças”.
            Suas humildes palavras tornavam-se palavras de Deus, pois sendo sacerdote disse algumas vezes: “qualquer que seja o sacerdote, ele é sempre o instrumento de que se serve o bom Deus para distribuir a Palavra”. Tentando assim orientar todos a uma verdadeira adesão a Cristo e aos seus ensinamentos, levando a uma experiência profunda em que ele mesmo era o grande exemplo.

3. Celebração da missa e dos Sacramentos

            O sacerdote de Ars tinha um grande zelo pela celebração, chegando a afirmar: “A frequência a missa é a maior ação que podemos praticar”. Muitas vezes queria mostrar-se ameaçador, mas parava no meio do caminho, como o pensamento em Jesus presente na Eucaristia.
            Seus paroquianos eram atentos às suas pregações, e muitos colegas sacerdotes o convidavam a celebrar em suas paróquias, pois ele sempre reavivou o culto à Eucaristia. Durante a celebração, na consagração, parava um pouco e meditava alguns minutos, percebendo que Cristo colocava-se realmente em suas mãos.
            Cristo colocava-se em suas mãos, e em sua confiança, transmitia o mistério mais profundo e íntimo. Reconhecia-se servo e amigo, cuja amizade e compromisso se renovavam todos os dias. Exercia sempre essa amizade em palavras e pensamentos. Aprendendo assim a sempre encontrar Jesus Cristo, fazendo sempre do seu agir um exemplo do próprio Mestre.
            Em seu encontro espiritual reavivava sempre o compromisso pastoral em Ars, empenhado pelos pobres e por todos os necessitados. Ao acordar, dirigia-se à igreja, passando alguns momentos de oração diante do Santíssimo Sacramento, depois ia confessar. De uma e meia ou duas da manhã até às seis ele atendia os penitentes. Celebrava a santa missa às seis, no verão e às sete, no inverno. Mandou fazer uma cadeira e um genuflexório para ver os penitentes, ouvi-los e falar com eles mais familiarmente do que na penumbra do confessionário. Interrompendo as confissões por volta das dez, onde ia ao altar-mor e, de joelhos, rezava o breviário.
Às onze parava, atendia ao pessoal que não tinha conseguido lugar na igreja. Ensinava catecismo às crianças, mas sendo sempre observado pelos peregrinos. Pelo meio dia, depois de ter se alimentado, mesmo de pé, entrava para a casa paroquial, fechava a porta com tranca. Depois voltava à igreja e confessava até cinco horas. Após um breve descanso, dirigia-se à sacristia, onde atendi os homens até as sete ou oito horas.
Rezava o terço e as orações da noite com os presentes, depois recolhia-se à casa paroquial. Recebia algumas pessoas e entre as nove e dez horas se fechava em seu quarto. Terminava a leitura do breviário, rezava, lia um pouco da vida dos santos e repousava por cerca de três ou até duas horas.
O bom confessor passava um bom tempo com os penitentes, mas só os mesmos sabiam o que se passava quando vinham pedir o perdão de Deus. No inicio de seu ministério São João Vianney tinha uma postura muito rigorosa. Para dar a absolvição considerava que o penitente deveria estar inteiramente voltado para Deus. Mas foi compreendendo pouco a pouco que precisa de um melhor conhecimento, ou seja, adaptação.
A bondade profunda do seu coração, as inspirações do Espírito Santo, os conselhos do seu bispo, Dom Devie, o impulsionou a renunciar a severidade e tornar-se o homem do perdão e da misericórdia. Chegando a dizer: “Poderia eu ser severo com pessoas que vêm de tão longe, que fazem tantos sacrifícios, que muitas vezes são obrigados a se disfarçarem para virem até aqui?”.
O Cura d’Ars atingia sempre o coração dos penitentes, pois ele havia recebido de Deus uma graça especial, um dom, um carisma. Algumas palavras de seu interlocutor ele percebia o restante e encontrava meios de tocar no essencial. Entre belos testemunhos, após uma confissão, um homem meio confuso, orientado por ele para comungar, meio duvidoso, saiu da confissão feliz, mas achava-se indigno da Eucaristia. E o confessor disse: “Não diga que você não é digno. É verdade, você não o é, mas precisa”.


REFERÊNCIAS:
JOULIN, Marc. João Maria Vianney: o Cura d’Ars. São Paulo: Paulinas, 1985.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.

QUEM FOI SANTA TERESA DE JESUS? NAS LINHAS DE DEUS


TEXTO CONCEDIDO POR:
LUIZ BRASILIANO DE SANTANA MARTINS


NAS LINHAS DE DEUS

            É nas entre linhas de uma ponta de caneta em folhas de papeis, um itinerário espiritual que iria surge uma experiência mística de orações meados do século XVI. Uma jovem da cidade de Ávila que não tinha consciência sobre as grandes transformações e maravilha que Deus iria fazer na sua vida a partir de experiências do cotidiano transferidas para as suas anotações como exercícios espirituais. Essa foi Santa Tereza de Ávila.

            Estes escritos teriam um lugar central na dimensão espiritual da Igreja e um dos pontos de referencia da espiritualidade cristã. Este trabalho não se trata em discutir o valor da santidade em si, mas de mostrar os valores num itinerário da espiritualidade da obra de Tereza. Os guias espirituais em geral de Tereza, era um escrito dos fenômenos vivenciados por ela a fim de avaliar a qualidade das suas experiências diante de Deus e de sua vida.
            No inicio do seu Livro da Vida, Santa Tereza Ávila exprimi com detalhes o surgimentos das primeiras experiências da sua infância diante as reflexões sobre Deus. Ela descreve como o Senhor começou a despertar a sua alma, de uma infância a um amor de virtudes. Neste contexto, suas referencias são seus pais.
Na morte de sua mãe, ela despertar reflexões da alma, surgindo a partir daí um interesse sobre a alma diante o Reino de Deus. Neste contexto o Senhor iluminou a tomar a decisão do hábito de freira. Descreve este chamado numa realidade tão própria de uma vocação, com suas incertezas e suas duvida. Mas pela influencia de pessoas de grandes virtudes, ela descreve como o Senhor foi aumentando cada vez mais no seu coração este desejo, até entra no convento das carmelitas, servos do amor, como ela descreve a vocação.
Assim, Santa Tereza de Ávila, já no convento como freira, buscar as resposta de suas duvidas enquanto criança a uma reflexão mais madura de como podemos chegar a Deus, suas reflexões sobre como alcança aquele Deus que tanto nos amou. Ela seguir um caminho que estabelece como sete graus de oração para chegar a Deus que depende principalmente de nossa disposição. Tereza escreve que este processo é lento, pois ela mesma se coloca neste processo.
Santa Tereza de Ávila ver a necessidade da confissão diária como um dos instrumentos como caminhos da alma ao estado de graça, pois suave é o amor de Deus. Estes graus serão conhecidos como as moradas de Deus. Pois a oração para Tereza é o instrumento para alcança-se a Deus, ou seja, a oração seria um elevador que nos faz subir neste edifício de morada até encontra-se na humildade da presença de Nosso Senhor Jesus Cristo que estaria conosco durante toda a caminhada.
Nesta jornada de oração até Deus, só podemos caminhar juntos como Ele, pois é Ele que nos dar coragem e animo para continuar subindo, ou seja, nos ensinamentos práticos da oração, Santa Tereza fala frequentemente de graus na oração. Desta forma, o primeiro grau seria o reconhecimento da Cruz de Cristo, pois se desejamos chegar a ultimo grau, temos que ter a consciência que para chegar ao Cristo, nunca podemos procura-lo se a sua cruz, pois é na Cruz que se encontra o nosso sinal de salvação. Esta aceitação é a primeira experiência que podemos experimentar na fé, diante as nossas inquietação e distrações dos pensamentos de nosso espirito diante a Cruz, só nesta experiência que podemos adentra no primeiro grau da oração.
Nesta jornada de oração, os graus indicam ao mesmo tempo uma escala de relação entre o homem e Deus. Desta forma, a oração humilde diante a meditação da Palavra ou dos mistérios do Senhor é o primeiro grau de Deus. Na mística de Tereza, a oração consiste num repouso pacifico e amoroso diante a vontade deste mistério divino, este mistério seria o segundo grau da oração. Nestas formas de oração, a verdadeira sabedoria e deleitosíssima maneira de a alma poder gozar diante este mistério, esta concepção seria o terceiro grau. Diante a meditação da palavra, a oração constante do mistério de Deus e a concepção deste mistério chegasse a um quarto grau, a união mística das orações. Esta união mística de Tereza é uma ação unificadora da oração, uma potencialidade da alma diante a relação do divino, como ela diz, um “voo do espirito”.
Assim seria a primeira fase da espiritualidade de Santa Tereza de Ávida, o que poderíamos avaliar como uma lectio divina, uma preparação da alma para conhecer e travessar as sete moradas do Senhor, pois estes moradas seriam um alto conhecimento de si mesmo. Este conhecimento pessoal passa pelas sete moradas do Senhor que ante das moradas existe a preparação, os quatro graus que são as preparações para o ponto de partida, uma preparação da própria alma diante os quatro graus da oração. Esta jornada de purificação da alma diante suas moradas, uma entrega total nos ensinamentos da liberdade para se chegar a Deus. Pois se os quatro graus encontramos a entrada de experiência misteriosa da presença de Deus, no recolhimento infuso da mente; a quietude e a paz da vontade, um sono que podemos chama de potencias, que as arrebata sem impedir-lhes de atender simultaneamente as coisas da vida e tento em si um voo do espirito[1]. Desta forma, podemos chegar à primeira das sete moradas.
As moradas são em se estados da alma, momentos que percorremos na busca de Deus. Desta forma, a primeira morada seria a percepção da alma como um aprisionamento no mundo, nas coisas matérias imerso no exterior, pois sua relação seria como Tereza apresenta uma relação de surdo-mudo, assim, a relação com Deus não poderia ser real.
A segunda morada seria o inicio de uma autentica oração meditativa. Seria a fundação de um nascer diante a sensibilidade da palavra e as coisas de Deus. Se na primeira morada constituíamos uma relação de surdos e mudos, nesta, começamos a ouvir. Diante estas realidades, a alma começa a sua purificação, passando a ter certa estabilidade na vida espiritual, esta seria a terceira morada, a luta pelo mundo exterior a partir da meditação, pronta para buscar a Deus.
A quarta morada é a estabilidade na meditação, seria um conhecimento com intervalos de quietude infusa da vontade. A renúncia do conhecimento e das lembranças da alma para si liberta totalmente.
Nesta jornada, a quinta morada seria um estado mais ou menos de profundidade na união a Cristo, diante a sua presença e nos seus mistérios. A alma, livre de todas as influencias exteriores numa mudança da pessoa na relação com Deus. Nesta morada a alma esta livre para caminhar sem olhar para traz, pois todos os seu ser esta em um só local, num só pensamento. A alma deixa de ser prisioneira para tornar-se livre para construir sua historia e o seu caminho. Na sexta morada, a alma vive numa oração extática, livre mais aprisionada na graça mística de Deus.
A última morada, a sétima morada, seria a união plena com Deus, uma conformidade com a vontade de Deus. Nesta plenitude misteriosa na união com Ele, podemos caracterizar pela experiência inabalada da Santíssima Trindade[2]. Esta experiência única, com o abandono do mundo na liberdade de aceitar o matrimonia com Deus, nesta disposição ao serviço aos outros é a plena configuração do Verbo, de Nosso senhor Jesus Cristo.
Assim, estas moradas são caminhos de uma perfeição espiritual, um guia da vida de experiência de uma simples mulher que transformou a vida espiritual da Igreja. Estas moradas de Tereza ensinam a fazer da uma vida, uma vida de oração e penitencia a busca de Deus. Um voo da alma, num caminho que nos levara a Deus. O Livro da Vida de Santa Tereza de Ávila seria um manual para uma busca espiritual de suas experiências própria de uma vida de oração plena. Este livro tem como objetivo, transmitir suas experiências a partir de duas etapas diante um itinerário de uma espiritualidade constante num caminho de purificação da alma.
Esta plena oração mística de Tereza, é transmitida de forma catequética, começando a falar de suas primeiras experiências de infâncias, suas angustia de aceitar o chamado ao Carmelo e o seu serviço de ajudar o próximo a subir os graus da oração. Desta forma, Santa Tereza e as suas moradas, transformaram a vida espiritual da Igreja. Que durante esta caminhada pelo mundo, possamos construir esta oração unificadora com o Cristo, tendo como exemplo a vida de oração de Santa Tereza de Ávila, suas orações de um itinerários de graus e a passagem pelo conhecimento das sete moradas do Senhor.



[1] N. 11-12
[2] Mt 7,2.

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SEMINARISTA SEVERINO DA SILVA.

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