JOÃO PAULO II - TEOLOGIA DO CORPO


AS CATEQUESES SOBRE
A TEOLOGIA DO CORPO DE JOÃO PAULO II


I.  INTRODUÇÃO

A presente pesquisa ao longo de sua descrição vai identificando um apaixonante itinerário catequético elucubrado pelo beato João Paulo II. E sem nenhuma grande pretensão ocupei-me em traçar inicialmente uma reflexão sobre o relacionamento do homem, imago Dei, com este mesmo Deus, dentro da perspectiva genesíaca. Pois não se concebe dentro da estrutura bíblico-teológica um conceito antropológico desatrelado do relacionamento com o Criador. Constatado isto, faz-nos afirmar que os primeiros capítulos do Gn respiram pura “espiritualidade”. Apresento ainda um entendimento sobre o sacramento do matrimônio como caminho seguro em vista da santidade. Posteriormente segue um comentário hermenêutico, na tentativa de fazer ponte entre o homem de “hoje” e o “homem adâmico”, que era a imagem do futuro Adão, Jesus Cristo. E por fim, seguem algumas intuições pessoais que objetivam estar em consonância com a Gaudium et spes n.22 (pressuposto das catequeses) que afirma: “O mistério do ser humano só se ilumina de fato à luz do mistério do Verbo encarnado”.

II.   VIDA DE ORAÇÃO:
“relação vertical, mas também relação horizontal”.

A Catequese do dia 06 de fevereiro de 1980, “a troca do dom do corpo cria autêntica comunhão”, situa-nos no contexto do estado da inocência original para dizer que a partir de Gn 2,23-25, existe uma experiência recíproca do corpo e do seu significado esponsal que necessariamente encerra-se no fim último, que é o relacionamento com Deus. Ou seja, homem e mulher unem-se em uma só carne (vida comum e partilhada) para fazer a vontade de Deus e não somente uma objetivação de felicidades próprias.
O beato João Paulo II em sua apurada base personalista vai propondo um itinerário antropológico que tem a sua realidade fontal em Deus. Homem e mulher, porque são dotados de liberdade interior, conseguem realizar uma troca do dom do corpo, segundo a sua masculinidade e feminilidade, como dom da pessoa. Existem aqui requintados traços de espiritualidade, aonde podemos alargar essa referida relação de troca, saindo tão somente do convívio entre homem e mulher. A pessoa humana é capaz de aceitar e acolher o outro ser humano porque em sua estrutura ontológica foi criado aberto ao outro e ao grande “Outro”, que é Deus. Na vida de João Paulo II é inquestionável a encarnação dessas reflexões; ele incansavelmente foi fazendo de sua vida uma oblação, não hesitou em ser dom livre e aberto para a humanidade. Fez-se homem relacional, assim como fora o homem adâmico no estado original, ele imbuído da potência de seu amor esponsal a Jesus Cristo, casto e integrado, propagou ao mundo que a vida com Deus (vida de relação também horizontal) faz a pessoa humana se reintegrar e voltar à vida virtual e beatífica do jardim genesíaco, sempre em vista do jardim escatológico.
Segunda a catequese mencionada acima, o contrário de uma vida sem abertura e acolhimento ao outro como dom propicia pois uma redução e coisificação do outro. Ele chama tal condição de antítese do dom. A espiritualidade conjugal extraída desta catequese em foco, nos ensina que o homem enriquece não só por meio do seu “ezer”, a mulher, que lhe dá a sua pessoa e feminilidade, mas também por meio da doação de si mesmo. A resposta por parte do homem, em resposta à da mulher, é para ele mesmo enriquecimento. Enfim, a relação adâmica no seu estado original, permeada pela “troca” de dom e de acolhimento, é um convite existencial ao relacionamento com Deus. “Ish” e “Ishan” foram criados para permanecerem na “gan”, jardim, no espaço protegido, dentro do qual o homem e Deus se refugiam. Foram criados voltados para o Oriente (Gn 2,8), ou seja, para Deus, que é a plenitude da vida.

III.  RELAÇÃO COM O SACRAMENTO DO MATRIMÔNIO:
Caminho seguro de santidade.

A vida sacramental é a postura performativa, que resulta do relacionamento com Deus. Para João Paulo II, a própria vida de Deus, que ultrapassa todas as aspirações possíveis do coração humano, faz-nos compreender que por meio do nosso batismo somos todos filhos de Deus e participantes desta vida.
As respectivas catequeses (o significado bíblico do conhecimento na convivência matrimonial - os interrogativos sobre o matrimônio na visão integral do homem - com o "sacramento do corpo" o homem sente-se sujeito de santidade) nos darão uma visão sobre o valor do sacramento do matrimônio e sua característica esponsal.
Na passagem mateana e marcana (respectivamente: 19,7-9; 10) que trata do discurso sobre o divórcio constata-se que Jesus responde aos fariseus acerca da indissolubilidade do matrimônio em confronto com o “libelo de repúdio”, presente em certos casos na lei mosaica. A resposta de Jesus, que é o entendimento doutrinário da Igreja também para os dias atuais, parte do chamado da imagem bíblica do “princípio”. Este significa que a primeira herança de cada ser humano no mundo, homem e mulher, primeira certidão da identidade humana segundo a palavra revelada, primeira fonte da certeza da sua vocação como pessoa criada à imagem do próprio Deus. As verdades fundamentais sobre o matrimônio cristão foram recordadas na resposta de Jesus aos fariseus e referem-se à visão integral do homem. Esta por sua vez, na visão de João Paulo II, questiona as múltiplas concepções parciais que permanentemente querem rebocar o verdadeiro significado matrimonial para um espaço amplamente relativista, distante do “mistério da criação”:

O homem torna-se, então, mais um objeto de determinadas técnicas do que sujeito responsável da própria ação. A resposta dada por Cristo aos fariseus quer também que o homem, varão e mulher, seja esse sujeito, isto é, um sujeito que decida as próprias ações à luz da verdade integral sobre si mesmo, enquanto verdade original, ou seja, fundamento das experiências autenticamente humanas. E esta a verdade que Cristo nos faz haurir do “princípio”. (Catequese: “os interrogativos sobre o matrimônio na visão integral do homem”).

O beato João Paulo II ao longo de sua exposição sobre o matrimônio cristão na ótica da criação, vai delineado discretamente que vigente sacramento é um estado de vida que seguramente torna-se caminho de salvação e da santidade. Este entendimento, que é sistematicamente proposto a partir do Vat. II, desconcerta na história o perfil de “perfeição” somente a partir da vida clerical e religiosa. O Papa de maneira alguma faz uma leitura anacrônica, o que ele discretamente motiva é o exercício da vida de santidade também na vida matrimonial, tornando-a esta promotora da “Igreja doméstica”.

IV.  COMENTÁRIO HERMENÊUTICO:
Os desafios do referido itinerário para o “hoje”.

Dada a exposição de alguns elementos presentes nas catequeses sobre a Teologia do Corpo nos primeiros anos do pontificado de João Paulo, vê-se agora a necessidade de dispor um comentário hermenêutico. O que não é uma tarefa difícil, pois nosso beato de forma magistral refletiu sobre questões que sabiamente já estavam avançadas para seu tempo. Ele falou da esponsalidade pela graça do batismo, não somente como uma realidade dos consagrados/religiosos; falou também da relação matrimonial como um dom aberto para a comunidade humana...
A principio neste comentário me ocuparei em atualizar o que ele nos disse sobre o sacramento do matrimônio como um sinal que aponta para a relacionalidade de Deus. Como posteriormente afirmou a Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Familiaris Consortio”, a família cristã é mantenedora dos valores fundamentais da instituição familiar, mesmo em meio às profundas mudanças sociais e culturais, que são profundas e rápidas. No hoje em que vivemos, num contexto amplamente relativista e de valores efêmeros, nos salta aos olhos a necessidade de reafirmar que a família representa a Aliança entre Deus e os homens, esta que foi realizada definitivamente na Nova e Eterna Aliança, no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo, Filho-Verbo, Encarnado na história. Tal valor do definitivo encoraja as famílias cristãs a firmarem-se no Absoluto, a estabelecerem relações que expressem o valor da abertura do dom da vida (procriação) e do dom da castidade. Afinal as catequeses no seu todo nos colocou em confronto com anti-valores (cultura de morte, difusão do divórcio, coisificação da pessoa/do corpo...), e que sorrateiramente tem tentado atrofiar a verdade do Evangelho.
A dimensão da esponsalidade é um dado que fundou-se no início beatificante do ser humano e do existir do homem, como homem e mulher, está  ligada com a revelação e com a descoberta do significado do corpo. Para os nossos tempos, o amor esponsal tornou-se, na compreensão pós Vat. II, um dom que pode ser vivido por todos os batizados. O amor esponsal entre cônjuges deve ser o reflexo do amor esponsal a Jesus Cristo, todo batizado, e não somente os consagrados, têm como exigência batismal amar incondicionalmente à Aquele que é o Esposo da Igreja, Jesus Cristo. Talvez aqui esteja o segredo para a evangelização na contemporaneidade, tão fragmentada e ferida. Somente um apaixonamento encarnado e provado por Jesus Cristo faz a família cristã cumprir a sua missão, ser fermento na massa (Mt 13,33).
O homem adâmico em sua dimensão esponsal e relacional é um epônimo para a família. Ele ainda quando em seu relacionamento com a Trindade no “jardim”, foi virtualmente livre da cultura de morte e do relativismo, manteve-se integrado. Mas por causa do pecado e porque Deus já havia predestinado, foi-nos enviado o Novo Adão, Jesus Cristo. Ele é o Esposo da Igreja e a conduz nas vicissitudes históricas, tornando-a santa, livre da fragmentação e da falta de relação.


V.  INTUIÇÕES PESSOAIS:
Aspectos antropológicos.

Todo o contexto das referidas catequeses são um eco do que já fora dito pelo Concílio Vaticano II, na Gaudium et spes, n.22:  “O mistério do ser humano só se ilumina de fato à luz do mistério do Verbo encarnado”. Foi Jesus Cristo quem nos apresentou plenamente o homem relacional (vertical e horizontalmente) e o modelo de castidade. A estrutura humana, mesmo ferida pelo pecado, é capaz de ser relação; no matrimônio, homem e mulher, podem efetivar relações maduras, encaminhadas para o “ordo amoris”. O Verbo Encarnado na história humana nos legou a possibilidade de ser relação inteira com Deus e com a comunidade humana. O caminho a ser trilhado é a via do amor. Amor este que exige renúncia e sacrifício, linguagens tão impactantes no mundo hodierno, mas que seguramente nos aponta para a Pátria Trinitária. Mas do que nunca se urge a necessidade de propor um modelo antropológico que de fato integre e gere autoconhecimento. O beato João Paulo II em suas catequeses em questão nos propôs um itinerário espiritual, alavancando pelo humano integrado, livrando-nos do dualismo platônico, que profeticamente dirá aos homens de nossos tempos, que a santidade é possível e é um dom aberto para todo o gênero humano. Que por meio da liberdade do amor e da comunhão, seja no matrimônio ou no celibato, os homens e a cultura que desconhecem o Amor de Deus serão conhecedores do mistério de si porque antes foram atraídos pelo mistério do Verbo que se encarnou e morreu na cruz (Jo 12,32).

VI.  CONCLUSÃO

Os textos-fontes do trabalho nos leva a ultimar que a “Teologia do Corpo” na doutrina católica é uma resposta de superação ao dualismo platônico, radicalização de corpo e da alma e que ao longo da história a Igreja foi refontizando o que sempre se compreendeu por sexualidade à luz das Sagradas Escrituras e da Tradição. A vida de João Paulo II, aqui enfatiza-se também suas reflexões antropológicas, fora um permanente grito ao mundo contemporâneo que o nosso Deus quis fazer-se história com o humano, Ele fez “berit”. Mas sempre utilizou-se do pressuposto bíblico-teológico da “relacionalidade” entre o Criador e a criatura. Para ele, a vida de santidade só é possível porque na história, o homem permite-se ser alcançado por este Deus que só sabe fazer relação. Nós, porque somos fragmentados, podemos nos fechar ao “Outro” e aos “outros”, mas Deus não. Deus só sabe ser e fazer-se relação! As famílias cristãs são chamadas a serem reflexos desta relação e as são, quando dizem performativamente “não” ao aborto, à eutanásia e a qualquer tipo de indício da cultura de morte.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Português. Tradução de Euclides Martins Balancin [et al]. São Paulo: Paulus, 2004. p. 1965-1992.

JOÃO PAULO II. A criação como dom fundamental e original. (Audiência Geral: 02/01/1980).

JOÃO PAULO II. A revelação e a descoberta do significado esponsal do corpo. (Audiência Geral: 09/01/1980).

JOÃO PAULO II. O homem-pessoa torna-se dom na liberdade do amor. (Audiência Geral: 16/01/1980).

JOÃO PAULO II. Consciência do significado do corpo e inocência original. (Audiência Geral: 30/01/1980).

JOÃO PAULO II. A troca do dom do corpo cria autêntica comunhão. (Audiência Geral: 06/02/1980).

JOÃO PAULO II. Com o "sacramento do corpo" o homem sente-se sujeito de santidade. (Audiência Geral: 20/02/1980).

JOÃO PAULO II. O significado bíblico do conhecimento na convivência matrimonial. (Audiência Geral: 05/03/1980).

JOÃO PAULO II. Os interrogativos sobre o matrimônio na visão integral do homem. (Audiência Geral: 02/04/1980).

JOÃO PAULO II. Familiaris Consortio. São Paulo: Paulinas, 1981.

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