A CURA DA SOGRA DE PEDRO (MT 8, 14-15)

LEITURA EXEGÉTICA
A CURA DA SOGRA DE PEDRO (MT 8, 14-15)


DELIMITAÇÃO EXTERNA

A delimitação externa deste texto, Mt 8,14-15, embora sendo dois versículos não parece tão complicada. Mt na perícope que antecede descreve Jesus entrando em Cafarnaum e logo em seguida seu encontro com o centurião, que implorava a cura de seu criado. Daí acontece um diálogo de Jesus com o centurião (v 6-9), e logo depois no (v10) vemos a reação de Jesus, que se volta para os que o seguiam e exclama: ‘’ Em verdade vos digo que, em Israel, não achei ninguém que tivesse tal fé [...]’’.
Assim, Jesus diz que virão muitos do Oriente e do Ocidente para sentar-se a mesa no reino dos céus. Com este aspecto messiânico Mt nos remete às principais personagens da tradição judaica, Abraão, Isaac e Jacó. Depois de dar a descrição da sentença dos filhos do reino, Jesus diz ao centurião que podes ir porque conforme a sua fé a cura foi realizada.
Na perícope em análise, Jesus se encontra entrando na casa de Pedro, e Mt leva-nos a entender que é o próprio Jesus que toma a iniciativa de curar a sogra de Pedro, por isso o gesto de tomar pela mão nos remete ao poder criacional de Deus, pois a mão é o símbolo da ação daquele que criou o homem o qual pode com ele co-criar.
No texto posterior, Jesus realiza diversas curas, e conforme a expressão usada por Mateus, ‘’ao entardecer’’, certamente do mesmo dia que realiza a cura da sogra de Pedro, leva-nos a entender que ele ainda está na casa de Pedro. Vale salientar também, que a relação identificando ’’demônios’’ com ‘’doenças segundo a citação de Isaías 53, 4, Jesus é o Messias que toma sobre si os sofrimentos dos outros para poupá-los.
Assim percebemos que a pericope - A cura da sogra de Pedro - está diretamente relacionada com a narrativa da cura do centurião e com o relato posterior das diversas curas.

DELIMITAÇÃO INTERNA

O texto em questão trata-se de uma tópica de milagres, tipo cura, onde se encontra uma estrutura interna que se dá da seguinte forma:

8,14a Entrada de Jesus na casa de Pedro;
8, 14b  Estado da mulher;
8,14c Iniciativa de Jesus sobre a mulher;
8,15a Ação de Jesus, cura imediata;
8,15b Reação da pessoa curada.

CRÍTICA TEXTUAL - ESTABELECIMENTO DO TEXTO

Cura da sogra de Pedro­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ _ 14Entrado Jesus na casa de Pedro, viu a sogra dele, que estava de cama e com febre. 15 Logo tocou-lhe a mão e a febre a deixou. Ela se levantou e pôs-se a servi-lo.

Como podemos perceber, não há problemas graves no que se refere a critica textual quanto ao texto do evangelho de Mateus que estudamos. No entanto, consideramos oportuno ressaltar algumas questões referentes ao verbo servir o qual diverge em algumas traduções.
As traduções (Pastoral, Peregrino e Vozes) utilizam o verbo servir em sua forma flexionada no plural – “e se pôs a servi-los”. Já a tradução de Jerusalém na sua edição atual apresenta no versículo 15 o verbo servir flexionado no singular “se pôs a servi-lo”, o que remete o leitor a certa ambigüidade       (servir a Pedro ou a Jesus).  No caso da tradução grega observamos que a forma do verbo servir no texto se translitera da seguinte maneira: (διηκόνει αύτώ – servia a ele.)

FORMA LITERÁRIA

A forma literária desta perícope é um relato de milagre tipo cura. O Sitz im Lebem do texto na terceira parte do livro de Mateus (8,14-15) está entre uma série de narrativas que começam e terminam umas ligadas às outras pela variedade de recursos literários que apresentam.
Todo o texto é dinamizado pelas figuras e palavras chaves que enriquecem o conteúdo: casa de Pedro, sogra dele, cama, febre, cura e serviço, que de certa forma além de dar uma seqüência com relação às ações das personagens, no caso de Jesus, Pedro e sua sogra, expressam uma grandeza simbólica.
O texto, além de está diretamente ligado ao anterior e ao posterior, das narrativas de milagres do evangelho de Mateus, liga-se ao livro dos Atos dos Apóstolos (3,7) aonde o próprio Pedro toma um aleijado pela mão e cura. Assim, Jesus, tocando a mão da mulher, coloca esta na condição de servir ao seu reino. É desta forma que acontece a mudança significativa e progressiva da perícope analisada. Contudo, no novo reino que Jesus inaugura os que são tocado por eles estão livres e prontos para servi-lo.

CRÍTICAS DAS FONTES OU COMPARAÇÃO SINÓTICA.

Além de Mt, a perícope é também narrada por Mc e Lc, entre as quais encontramos algumas diferenças que nos ajudam a observar a estrutura e o estilo próprio de cada autor, como também o objetivo teológico de cada evangelho.
No evangelho de Marcos a perícope é construída na seqüência da que antecede, e dá continuidade a que segue, ou seja, sua forma literária não se separa do texto anterior no qual mostra Jesus curando um endemoniado em Cafarnaum, que confessa saber quem é Jesus (1, 24). Marcos ainda diz que Jesus tornava-se famoso por toda a Galiléia e introduz a perícope diferentemente de Mateus com a seguinte expressão: ‘’E logo ao sair da sinagoga, foi à casa de Simão e de André, com Tiago e João’’. Assim acontece uma mudança nas personagens da perícope de Marcos, o autor diz ainda que foram eles que suplicaram a Jesus a cura da mulher.
Em Lucas o texto se desenvolve com algumas diferenças com relação aos outros evangelhos.  Pedro é chamado de Simão e a forma de Jesus curar a febre da mulher é diferente de Mt e Mc. Lc diz que a mulher se encontrava com febre alta, e Jesus inclinou-se para ela conjurando severamente a doença (4,38-39). Na perícope anterior da mesma forma como em Mateus, Jesus ensina e cura o endemoniado em Cafarnaum, isso causa admiração e fama. Já na posterior, Jesus cura impondo as mãos, Lucas diz ainda que os demônios que saiam revelavam que Jesus era o filho de Deus, portanto, Jesus os proibia.

HISTORICIDADE DO TEXTO

O texto analisado apresenta várias possibilidades de sua veracidade histórica.
Em primeiro lugar o dado da múltipla atestação, ou seja, o texto está presente não só em Mateus, mas em Lucas e Marcos.
A perícope além de apresentar uma ordem com as demais em sua delimitação externa, sua historicidade também se comprova pela sua argumentação teológica. Jesus está exercendo seu ministério na Galiléia e ensinando aos seus discípulos; os três evangelhos dizem que o fato se deu em Cafarnaum na casa de Pedro.
Os aspectos da ambientarão em que é narrada a perícope são ricos em detalhes nos três evangelhos.  Toda a simbologia expressada na perícope apresenta uma seqüência de fatos que se desenvolve em volta da história narrada, entrada de Jesus na casa de Pedro, a mulher que estava de cama, logo que foi curada pôs a servi-lo, tudo isto comprova na narrativa seu caráter histórico.

ANÁLISE DO VOCABULÁRIO DE EXPRESSÃO 
E CARACTERÍSTICA DAS PERSONAGENS.

Tudo gira em volta da cura de uma mulher, a qual se dá na casa de Pedro possivelmente em Cafarnaum. No texto o vocabulário não se apresenta com nenhuma obscuridade. No tocante a ação de Jesus, tudo se dá de maneira objetiva e com uma certa seqüência. Mateus diz que Jesus chega à casa de Pedro toma a iniciativa ao vê sua sogra de cama e com febre, toca a mão dela e a cura, enquanto a mesma pós a servi-lo.
Podemos perceber que o campo semântico perpassado todo o texto não é contraditório, nem está fora do léxico compreensivo da mensagem transmitida pelo autor, contudo, a expressão, ‘’logo tocou-lhe a mão’’ (8, 15) expressa um entendimento amplo da ação de Jesus apresentada também em Marcos (9,14s) no episódio do epiléptico endemoniado o qual os discípulos não puderam curar.‘’Jesus, porém, tomando pela mão ergueu’’. Também Atos (3, 7), em nome de Jesus Pedro tomando pela mão um aleijado ergueu para a vida nova para ser sinal do reino de Deus. Lc ao contrário de Mt e Mc diz que Jesus inclinou e conjurou ( exorcizar) a febre.
Portanto, a expressão de ambos os autores leva a entender que Jesus realmente realizou uma cura na casa de Pedro, sem ser muito propagada por talvez ter sido realizada em meios aos discípulos, e estes não podiam revelar os sinais de Jesus. Pois Mc relata em seu evangelho que Jesus ao sair da sinagoga foi à casa de Simão e de André com Tiago e João (1, 29). Assim, as personagens se caracterizam conforme a semântica do texto possibilitando ao leitor uma ampla e expressiva compreensão com relação à perícope.

SÍNTESE TEOLÓGICA

O objetivo do evangelho de Mateus é dizer que Jesus é o Filho de Deus, o Emanuel, o novo Moisés, o Libertador que vem fazer valer a prática da justiça. Jesus é apresentado como a síntese do programa de Deus para levar a história à sua plenitude. Nesta perspectiva está o episódio da cura da sogra de Pedro narrado por Mateus ( 8, 14-15).
O texto está dentro de uma série de narrativas de curas que Jesus realiza na Galiléia e redondezas. O povo em Israel vivia sob o jugo da Lei de pureza legal, e de certa forma, o relato da cura da sogra de Pedro está inserida neste contexto de puro/ impuro (Lv14). A mulher de cama e com febre não pode servir, Jesus viu a sua situação e realiza aquilo que Deus deseja fazer, levantar pela mão os que estão caídos, desanimados e excluídos.
No tempo de Jesus, a doença era vista como parte do domínio do mal. A maneira como Jesus age indica o encontro de Deus com a pessoa humana, e ao mesmo tempo é o lugar da ‘’batalha’’ que o Pai quer realizar na pessoa de seu Filho com toda a humanidade.
A força do reino entra na mulher e a febre, como uma força maligna pessoal, tem que recuar da mesma forma que o filho do centurião foi curado. ‘’Vai! Como creste, assim te seja feito! Naquela mesma hora o criado ficou são’’ (v13). No episódio com o centurião em Cafarnaum, Jesus encontra tamanha fé no homem pagão, que diz não ter encontrado em Israel uma fé igual, quando este confessa não ser digno de que Jesus entre na sua casa. Assim, Jesus entende as nuanças dos que estavam submetidos aos poderes do seu tempo.
Na cura da mulher, isto é, da sogra de Pedro, quando Jesus a liberta do mal que era a doença, ela ‘’ se pôs a servi-lo’’. Deste modo observamos que diante da presença de Jesus o mal perde sua força, e o Reino de Deus está se aproximando.
O novo reino inaugurado por Jesus é um verdadeiro encontro de Deus com a pessoa humana junto à mesa do banquete, onde não há mais impossibilidade por parte da Lei e dos costumes de um determinado povo. Ou seja, o convite de Jesus é para instaurar um Reino universal. ‘’ Virão do ocidente e do oriente para sentar-se à mesa no reino dos céus, com Abraão, Isaac e Jacó’’ (v 8,11). Ao sentar-se à mesa da casa de Pedro com os que estão excluídos Jesus abre caminho para os que vão servir no banquete do amor serviçal.
Em suma, percebemos que Jesus quer construir uma humanidade nova onde não seja regida unicamente por leis, normas e costumes, mas por uma continua doação de serviço a Deus e ao próximo.

LEITURA HERMENÊUTICA

A perícope estudada fala respectivamente do amor serviçal e das impossibilidades que impedem as pessoas de realizá-lo. Olhando o sistema da sociedade do tempo de Jesus, percebemos que o povo em Israel vivia sob o jugo de leis e normas, as quais impediam de viver e servir com dignidade a Javé.
A ação de Jesus de entrar na casa de Pedro, conforme nos relata a pericope estudada, nos leva a entender que Jesus entra na intimidade do convívio do seu povo e se coloca na condição de servo, que se compadece e enfrenta tudo o que venha destruir a dignidade do seu povo.
Ao entrar na ‘’casa’’ da nossa realidade humana e social, Jesus enxerga as nossas fragilidades e nos toma pela mão para nos dá a dignidade de servi-lo. Observando o contexto no qual vivemos, percebemos o quanto temos de irmãos precisando de alguém que os levantem pela mão e lhes mostrem o horizonte da esperança e do amor, para que assim, eles possam servir com dignidade e livres de tudo o que venha deixar de cama.
O que mais nos entristece ainda, olhando nossa realidade social, política, religiosa e cultural, é saber que em nosso país pessoas chegam a morrer nas filas de hospitais e postos de saúde a mercê de um atendimento médico. O que infelizmente faz com que o valor da vida humana, em nossos dias, seja tratado como algo descartável, por isso cabe-nos a seguinte indagação: o que a humanidade tem feito com a inteligência e o progresso que sem dúvida é algo grandioso e bonito?
Parece que o essencial nos tem faltado para que o homem realmente crie e favoreça um ambiente feliz com os seus semelhantes. A criatura humana, nunca esteve tão longe de construir uma cultura de justiça, fraternidade e amor. Sim, é verdade, falta aquilo que fez Jesus com o centurião ao reconhecer a grandeza de sua fé, e ainda mais falta curar a febre da injustiça e corrupção que reina e fere nos corações das pessoas. Assim curados desses males, e de tantos outros teremos possibilidades e liberdade para edificar no mundo em que vivemos o reino do amor serviçal.

REFÊRENCIA BIBLIOGRÁFICA

Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revisada e ampliada.
Bíblia do Peregrino
Bíblia Sagrada. Edição Pastoral
Bíblia Sagrada. Edição Vozes
LOHSE, Eduard. Contexto e ambiente do Novo Testamento. 2ed. São Paulo: Paulinas, 2002.
MARCONCINI, Benito. Os Evangelhos Sinóticos – Formação, Redação, Teologia. São Paulo: Paulinas, 2001.
Novo Testamento interlinear grego – português. Sociedade bíblica do Brasil, 2004.

FIQUEM NA PAZ DE DEUS!
SEMINARISTA SEVERINO DA SILVA.

2 comentários:

  1. Seminarista Severino.
    A paz em Cristo e Maria.
    Seu blog é de uma riqueza extraordinária com belíssimas explicações de textos biblicos.É sem sombra de dúvidas LUZ para todos que vier a esta FONTE e BEBER desta água. Meus parabéns! Já estou te seguindo viu.

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  2. Amigo Geraldo seja bem vindo, que DEUS te acompanhe sempre na tua caminhada... Divulgue para os seus amigos, um abraço.

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