O MUNDO DE JESUS


RESUMO DO LIVRO:
UM ENCONTRO FASCINANTE COM JESUS:
O MUNDO DE JESUS



SICRE, José Luis. Um encontro fascinante com Jesus: o mundo de Jesus. Vol. 2. São Paulo: Paulus, 2004.



PARTE I – A TERRA E AS MEMÓRIAS


A terra que Jesus conheceu

O território de Israel é muito pequeno e a maioria dos lugares relacionados com os evangelhos não exigem grandes deslocamentos. Entre Nazaré e Belém só há 162 km; de Nazaré a Cafarnaum são 46 km; de Betânia a Jerusalém, 9 km; e de Nazaré a Cana são 6 km. No tempo de Jesus não existia “Israel”, e sim uma série de pequenos territórios: a província romana da Judéia, a Tetrarquia de Filipe, Samaria, a Decápole, entre outros.

Israel é um país muito montanhoso, com ladeiras bastante acentuadas e contínuas. Nazaré é uma aldeia primitiva, de contexto arejado, encerrada entre três colinas. Nunca é mencionada no Antigo Testamento, nem nas obras de Flávio Josefo.  A conhecemos graças ao trabalho arqueológico dos franciscanos. O problema com Caná está no fato de que não sabemos exatamente localizá-la. Em qualquer hipótese sobre sua localização, nela ocorre o primeiro milagre de Jesus, segundo João.

Cerca de 50 anos antes do nascimento de Jesus, 57 a.C., o romano Gabínio teria convertido Séforis em capital da Galiléia. Fato lógico, dada a sua esplêndida localização geográfica. Recém-nascido Jesus, ela se rebelou contra Roma. Os habitantes resistiram todo o possível ao exército de Varo, legado romano da Síria. Como castigo, Séforis foi incendiada e seus habitantes, deportados. No entanto, Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia desde a infância de Jesus, não interessava que Séforis estivesse em ruínas. Necessitava dela como centro militar e administrativo. Por isso, fortificou-a e converteu-a em adorno de toda a Galiléia.

Segundo alguns autores, baseados na Autobiobrafia de Flávio Josefo, o caminho da Galiléia a Jerusalém, leva três dias para ser percorrido. O caminho pela Samaria era o melhor itinerário para uma viagem rápida, porém sujeita a reação dos samaritanos. O fato de se atravessar o território samaritano não impedia que se recordassem interessantes tradições patriarcais.

Sobre o caminho pelo vale do Jordão, há duas opiniões. Uma é de que este seria o último caminho que um galileu escolheria para ir a Jerusalém, a outra é que este seria o caminho mais habitual. Em qualquer hipótese, parece que Jesus percorreu este caminho durante sua atividade apostólica.

Jerusalém era a cidade mais distinta não só da Judéia, mas sim de todo o Oriente. O seu esplendor provinha do lugar central que ocupava para todos os judeus. A Jerusalém do tempo de Jesus apresenta a seguinte panorâmica: à direita está limitada pelo Vale do Cedron e pelo Monte das Oliveiras. À esquerda, pela torrente Hinom. No centro da cidade, junto ao muro ocidental do templo, encontram-se a Tiropéion. Para a vida posterior de Jesus, os pontos chaves são:
·         a nordeste, na parte externa das muralhas, a piscina de Betesda;
·         a noroeste do recinto do templo, a fortaleza Antônia;
·         descendo pelo muro ocidental, formando quase um ângulo reto, encontrava-se o monte da caveira, o lugar da crucificação, que naquela época ficava na parte externa das muralhas;
·         um pouco mais abaixo, em um recinto retangular amuralhado, ficava o palácio de Herodes Antipas, onde o tetrarca interrogou Jesus;
·         o bairro que se situava no ângulo sudoeste da cidade estava habitado por essênios. Numa de suas casas Jesus celebrou a última ceia e ali se formou a primeira comunidade cristã. Muito próximo se encontrava o palácio de Caifás;
·         no ângulo sudeste se encontra a piscina de Siloé, à qual Jesus enviou o cego de nascimento para se lavar. Muito próximo, a torre de Siloé, que desabou esmagando dezoito pessoas.

Quando Jesus decidiu abandonar Nazaré e mudar-se para Cafarnaum, certamente esteve no lago da Galiléia, à beira do qual estava Tiberíades. Em razão de Jesus ser judeu piedoso não passava por Tiberíades, cidade moderna e paganizada, construída por Herodes Antipas no ano 19 de nossa era. Jesus teria duas possibilidades: desviar-se a noroeste, a fim de tomar o caminho de Séforis a Magdala; ou desviar-se a leste para usar a via maris. Em ambas as hipóteses, chegaria ao lago por Magdala.

O lago de Genezaré, chamado também lago de Tiberíades e mar da Galiléia, tem dimensões muito fáceis de recordar: 12 km em sua faixa mais estreita e 21 na mais larga. O lago tem três qualidades: acha-se a 208 metros abaixo do nível do mar; é de uma beleza impressionante; em suas margens faz um forte calor úmido na primavera.

Sobre Cafarnaum não há consenso acerca da sua população. Para Wilkinson sua população nos tempos de Jesus podia ser de uns nove mil habitantes. Menteus, por outro lado, fala de mil ou dois mil. Mais radical é Loffreda, que calcula 1.500 habitantes para a época de máximo esplendor, durante o período bizantino. Com respeito ao tempo de Jesus, não se atreve a fazer cálculos, mas fica claro que deveria ser em torno de mil habitantes, ou até menos. A população, ainda que escassa, é muito variada: pescadores, agricultores, comerciantes, artesãos. Jesus adota Cafarnaum como sua cidade, um centro de operações a partir do qual terá rápido acesso aos povoados próximos.

Rodeando o lago, bem junto ao norte, junto à desembocadura do Jordão, encontrava-se Betsaida, escavada recentemente. No tempo de Filipe, o povoado de Betsaida, ao lado de Genezaré, foi elevado à dignidade de cidade devido ao número de seus habitantes e recebeu o nome de Júlia, em honra da filha de César.
           
A subida a Corazin era de dois a três quilômetros. Há poucos anos, Corazin era só um monte de ruínas negras de pedras basálticas, que traziam a memória da maldição evangélica. Atualmente, as ruínas foram escavadas e oferecem uma imagem muito interessante de como seria a aldeia nos séculos II-III de nossa era.

As grandes viagens de Jesus orientam-se em três direções. A mais freqüente é a subida a Jerusalém. A segunda, segundo os evangelhos, foi uma fuga até o norte, que termina na região de Cesaréia de Filipe. A outra grande viagem é a noroeste, até Tiro, que leva vários dias de caminhada.

Regiões mencionadas nos evangelhos

Seguindo a direção norte-sul, entre o Jordão e o Mediterrâneo, encontramos Fenícia, Galiléia, Samaria e Judéia. Ao leste do Jordão, também na direção norte-sul, Abilene, Gaulanítide e Peréia.
·         Fenícia: ao norte de Cesaréia marítima, abrangendo a planície de Dor, o Monte Carmelo e a costa até Trípoli. Principais cidades costeiras: Ptolomaida, Tiro, Sarepta e Sidon.
·         Galiléia: entre o Jordão, o Líbano, a planície Fenícia, o Monte Carmelo e a planície de Jezrael. Suas dimensões eram de 70 km de comprimento por 40 de largura. Estava dividida em duas regiões, a alta e a baixa, delimitadas geograficamente pelo vale que corre até Ptolomaida.
·         Samaria: a capital foi fortificada por Herodes, o Grande, que a converteu em uma das cidades mais formosas de seu reino. Em honra de Augusto, ele trocou o nome para Sebaste (Augusta) e construiu um templo pagão dedicado ao imperador.
·         Judéia: é a denominação helenística e romana dada à parte da Palestina povoada por judeus. Antes dos macabeus, era uma região relativamente pequena, entre o Jordão, a Iduméia, Lida e Arimatéia. Mais tarde, outras zonas foram judaizadas e o termo adquiriu um sentido amplo.
·         Abilene: região do Antilíbano, a noroeste de Damasco. Até o ano 34 a.C. fazia parte da Ituréia, mas logo se tornou independente dela.
·         Ituréia: pequena região a oeste de Abilene; fazia parte da tetrarquia de Filipe.
·         Gaulanítide: toma seu nome da região de Golan. No tempo de Jesus pertencia a tetrarquia de Filipe. Nessa região encontrava-se Betsaida-Julia e Cesaréia de Filipe.
·         Traconítide: região entre Damasco e os montes Jauran, limitado a oeste por Gaulanítide e Batanéia, e a leste pelo deserto Siroarábico. Até a chegada dos romanos, estava povoada por nômades salteadores e por judeus e sírios.
·         Decápole: o nome faz referência às dez cidades que a formavam, as quais segundo Plínio, eram Damasco, Filadélfia, Rafaná, Citópoles, Gadara, Hipos, Dion, Péla, Garasa e Canata.
·         Peréia: situada do outro lado do Jordão, constitui uma estreita faixa que vai do vale Carit até o Arnon. Ao leste limitava-se com a Decápole e o reino nabateu; a oeste, com o Jordão e o Mar Morto.


Precedentes da época de Jesus

Fatos que condicionaram a época de Jesus: o helenismo, o domínio de Roma, o reinado de Herodes e a situação da Galiléia.

1.O helenismo
Trata-se de um fenômeno que abrange aspectos políticos, sociais, culturais e religiosos que se propaga a partir da conquista de Alexandre Magno (333 a.C). Suas manifestações mais evidentes são a difusão da língua e da cultura. Parece que este fenômeno não teve especial importância na Palestina do século III a.C., quando os judeus estavam submetidos aos ptolomeus do Egito, ainda que inúmeros objetos revelem que a região não foi insensível ao novo estilo artístico. Mas no séc. II a.C., o domínio desta região passou aos selêucidas da Síria. E estes, sobretudo Antíoco IV Epífanes, levaram a cabo uma séria campanha de helenização.


2.O domínio de Roma
O dado essencial, no séc. I a.C., que resume o domínio de Roma é a intervenção do general romano Scauro, residente em Damasco, que se inteira das rivalidades entre Hircano e Aristóbulo, dois irmãos descendentes dos macabeus que disputam o poder. Apoiando um deles, Scauro acreditava garantir a influência de Roma sobre esta região. Pouco depois intervém Pompeu conquistando Jerusalém (67 a.C.) e entrando no santuário do Templo, algo reservado ao Sumo Sacerdote; nomeia Hircano como Sumo Sacerdote, decapita seus principais inimigos e submete o país ao tributo. Dez anos mais tarde, em conseqüência das freqüentes rebeliões contra Roma, Gabínio divide o país em cinco distritos com capitais em Jerusalém, Gadara, Amato, Jericó e Séforis (57 a.C.).

3.O reinado de Herodes, o Grande
Herodes nasceu em 73 a.C., começa sua carreira política muito jovem, aos vinte e cinco anos de idade, quando seu pai Antípater o nomeia governador da Galiléia. Até o ano 37 a.C., em que foi nomeado “rei dos judeus”, demonstrou grande habilidade política. Herodes tem de se mover em um ambiente tremendamente incerto por causa das guerras civis eclodidas em Roma. No entanto o fez com grande astúcia. Sua obra mais duradoura foram as suas construções: o templo e o palácio em Jerusalém; as cidades de Cesaréia marítima e Antipátrida; inúmeras fortalezas-palácios.

4.A situação da Galiléia
No ano 53 a.C., quando Cássio chegou à Galiléia fugindo dos partos, conquistou a Tariquéia, reduziu trinta mil judeus (galileus) à escravidão e matou Peitolau, partidário de Aristóbulo. Mais tarde, Herodes (37-4 a.C.) realizou uma dura campanha contra essa região, atacando Séforis e Arbela, cidades em que se refugiaram os rebeldes. Mas isto não significou a plena submissão dos galileus. Mais tarde atacam o general de Herodes, Ptolomeu, matam-no e fogem para lugares pantanosos e inacessíveis, devastando e roubando por toda a região. Herodes volta, mata parte dos rebeldes, ataca os que se encontram em lugares fortificados e arrasa fortalezas. Desta maneira terminou com a sedição e impôs à população uma multa de cem talentos. O que não impediu que, pouco mais tarde, seus inimigos galileus afogassem no lago de Genesaré seus partidários mais notáveis.


A época de Jesus

Dados históricos a propósito de diversas questões: os filhos de Herodes, os prefeitos romanos, a situação na Galiléia, sicários e zelotas, relações entre judeus e samaritanos.

1.Os filhos de Herodes
Em seu testamento, Herodes, o Grande, dividiu o reino entre seus filhos Arquelau, Herodes Antipas e Filipe. Só o primeiro herdaria o título de rei, os outros dois teriam o de tetrarca. Mas o testamento deveria ser aprovado por Augusto, e este introduziu algumas modificações. A Arquelau não concedeu título de rei, mas o de etnarca; a ele coube a Judéia, a Samaria e a Iduméia. Antipas recebeu a Galiléia e a Peréia. Filipe ficou com a Gaulanítide, Ituréia, Traconítide e Auranítide. Em virtude de serem vassalos de Roma, os três estavam sujeitos ao governador da Síria.

2.Os prefeitos romanos da Judéia (de Copônio a Pilatos)
Depois da deposição de Arquelau, a Judéia tornou-se província romana, dependente de um prefeito. Durante a vida de Jesus, os prefeitos romanos foram Copônio (6-9), Marco Ambíbulo (9-12), Annio Rufo (12-15), Valério Grato (15-26) e Pilatos (26-36).
Os três prefeitos de maior importância são:
·         Copônio: foi no tempo deste prefeito que o templo de Jerusalém foi profanado pelos samaritanos;
·         Valério Grato: durante seu mandato, Herodes Antipas construiu a cidade de Tiberíades;
·         Pilatos: o prefeito mais famoso, homem cruel, que parecia se alegrar irritando os judeus.

3. A situação na Galiléia
Durante a infância de Jesus, o episódio mais significativo foi a rebelião de Judas, que se apoderou do arsenal de Séforis e provocou uma duríssima repressão na cidade.

4. Sicários e zelotas
No tempo de Jesus havia pessoas “zelosas” da lei, que podiam manter posturas extremas, mas não estavam organizadas em nenhum grupo ou partido político.
Os sicários eram uma espécie de bandidos que matavam as pessoas em pleno dia e no meio da cidade. Esse grupo viveu pelos anos 50-60, bem depois da morte de Jesus. Mais tardio ainda é o partido dos zelotas, que se organizaram em 66 d.C., durante o governo provisório que se formou em Jerusalém, durante a rebelião contra Roma. Este grupo não possui um grande referencial ideológico ou religioso.

5. As relações entre judeus e samaritanos
Os conflitos entre estes dois povos têm uma história muito complexa, que passou pelas seguintes etapas:
1º) o primeiro distanciamento entre norte e sul, ou seja, judeus e samaritanos, aconteceu com a união das tribos da Palestina e as do sul, nos tempos de Davi, que o aceitaram com rei, que mais tarde, com a morte de Salomão (931 a.C.), tornaram-se independentes e formaram o Reino de Norte (Israel), cuja capital passou sucessivamente de Siquém a Tirsa e logo para Samaria, quando esta cidade foi construída por Omri, no século IX a.C;
2º) o reino do norte desaparece no ano 721 a.C., quando os assírios a conquistam e deportam um bom número de samaritanos. Se as relações com Judá quase sempre haviam sido más, a partir deste momento aumenta o desprezo dos judeus pelos samaritanos;
3º) em 520 a.C., os judeus decidem reconstruir o templo de Jerusalém; os samaritanos se oferecem para ajudá-los, mas são rejeitados;
4º) nos tempos de Esdras e Neemias (séc. V a.C.), os conflitos continuam e aumentam;
5º) Samaria é conquistada por Alexandre Magno em 331 e sofre um processo de helenização que a distancia ainda mais de Jerusalém;
6º) o asmoneu João Hircano, em sua política expansionista, conquista a Samaria em 107 a.C. e a destrói, o que aumenta o ódio entre ambos os povos;
7º) Herodes fortifica e embeleza a Samaria e a converte em cidade pagã, helenizada. Com isso, o desprezo dos judeus aos samaritanos alcança seus índices mais altos, e estes pagam com a mesma moeda.


Quem é quem nos evangelhos?

·         Anás: Sumo sacerdote entre os anos 6 e 15 d.C.
·         Antipas: filho de Herodes, o Grande, e Maltace. Irmão de pai e mãe e Arquelau. Herdou a Galiléia e a Peréia. Governou desde 4 a.C. Era astuto, ambicioso e amante do luxo. Para proteger a Galiléia, reconstruiu Séforis e a rodeou de fortes muralhas. Sua obra mais importante foi a fundação de uma nova capital à margem do lago da Galiléia, a que deu o nome de Tiberíades, em honra ao imperador Tibério.
·         Arquelau: filho de Herodes, o Grande, e Maltace. César Augusto o constituiu etnarca. Herdou a metade do reino de seu pai, a Iduméia, Judéia e Samaria. Governou de 4 a.C. a 6 d.C.
·         Augusto: nascido em 63 a.C. Gaio Otaviano era sobrinho-neto de Júlio César, que o adotou como filho em seu testamento. Quando Júlio César foi assassinado (ano 44 a.C.), Otaviano, que só tinha 19 anos de idade, tomou o nome de Gaio César Augusto Otaviano.
·         Caifás: genro do Sumo sacerdote Anás. Foi Sumo sacerdote do ano 18 ao 37.
·         Filipe: filho de Herodes, o Grande, e da jerosolimitana Cleópatra. A Filipe coube a Batanéia e a Traconítide, a Auranítide e uma parte do que se chamava a “casa de Zenodoro”. Morreu em 37 d.C., sem deixar filhos; por isso seu território ficou em mãos do imperador Tibério.
·         Herodes, o Grande: nasceu em 43 a.C. Iniciou sua carreira política muito jovem, aos vinte e cinco anos, como governador da Galiléia.
·         Herodíades: esposa de Herodes Antipas.
·         João Batista: um homem justo que divulgava a prática das virtudes. Foi assassinado por Herodes.
·         Lisânias: tetrarca da Abilene.
·         Pôncio Pilatos: prefeito romano da Judéia entre 26-36 d.C.
·         Quirino, P. Sulpício: governador da Síria a partir de 6 d.C. Nasceu em Roma no ano 21 a.C.
·         Tibério: nascido em 42 a.C., morre em 37 d.C. Enteado de Augusto, teria 56 anos ao assumir o comando do império, em 14 d.C.


Datas importantes

Século I antes de Cristo
·         63: Pompeu invade o templo de Jerusalém. Judá fica submetida a Roma.
·         57: rebelião contra Roma, sufocada por Gabínio, que divide o Estado Judeu em cinco distritos.
·         44: Júlio César é assassinado por Bruto e Cássio. Guerra civil em Roma.
·         40-37: campanha de Herodes na Galiléia, para submeter as restantes fortalezas e expulsar as guarnições de Antígono.
·         20: inicia-se a construção do templo de Jerusalém. Época de Hillel e Shamay
·         10: consagração do templo de Jerusalém. Conclusão da Cesaréia marítima.
·         4: morte de Herodes. Divisão do reino entre seus filhos. Insurreição dos judeus, esmagados por Varo.

Século I depois de Cristo
·         6: queda de Arquelau. Seu território passa a ser província romana. Censo de Quirino. Rebelião de Judas, o galileu.
·         14: morre Augusto.
·         14-37: Tibério
·         18-37: Caifás, genro de Anás, Sumo sacerdote.
·         26-36: Pôncio Pilatos, prefeito da Judéia.

PARTE II – ORAÇÕES E FESTAS

Orações

A recitação do “Shemá”
O “Shemá”(ouve, ó Israel) não é propriamente uma oração, mas uma confissão de fé. Recita-se antes de se começar o trabalho cotidiano, ao amanhecer, e à tarde, ao terminar o trabalho, ao pôr-do-sol.           A prática está testemunhada já no século II a.C. e observada tanto na Palestina como na diáspora. Não é preciso recitá-la em hebraico; pode-se fazê-lo em qualquer idioma. A recitação do Shemá era considerado o mínimo da prática religiosa.

As dezoito bênçãos
À prática de recitar o Shemá se uniu a dos três momentos de oração durante o dia. De manhã, imediatamente depois do Shemá, rezava-se a Tefilá. À tarde, só esta última. Ao pôr-do-sol, as duas orações. O típico desses momentos é o louvor a Deus e a petição. Para isso pronunciam-se dezoito bênçãos. A oração por excelência é conhecida como Tefilá. Por ser recitada de pé, é conhecida também como Amidá. E em razão de seu número também é chamada de “as dezoito”.  Havia, também,bênçãos para os diferentes momentos do dia: ao se levantar, durante o dia e em ocasiões particulares.


O sábado: descanso e liturgia

Origem e sentido do Sábado
Embora se discuta muito sobre sua origem, é uma instituição típica de Israel. É possível que inicialmente não fosse uma festa religiosa, mas dia de descanso. Este descanso está relacionado com a vontade de Deus; não é um descanso meramente profano; sua observância demonstra a fidelidade a Deus.

O descanso sabático
Observar o Sábado é submeter-se a um ritmo humano, em que se alternam trabalho e repouso, luta pelo pão de cada dia e desfrute sereno do próprio esforço, sem angústias por aumentar as posses.

A liturgia matutina
Atualmente, a celebração sinagogal do shabbat começa na sexta-feira à tarde. Não se sabe se este costume estava já em vigor nos tempos de Jesus. Conforme os evangelhos, ele ia à sinagoga no sábado pela manhã. A cerimônia matutina teria provavelmente a mesma estrutura tripartite da atualidade: orações iniciais, leitura da Torá e orações finais. Dentro da liturgia sinagogal está a oração mais famosa. O Kadish é a mais célebre doxologia da liturgia hebraica.


As três festas anuais de peregrinação

A Páscoa
Segundo os textos sacerdotais de Ez 45,21 a data da Páscoa o 14/15 do primeiro mês judeu (março-abril), na lua cheia, porque é a noite do mês em que há mais claridade. Esta data deve ter sido a da Páscoa desde o princípio. A páscoa terminou vinculada à celebração dos ázimos, festa de origem distinta e de caráter agrícola, que se caracteriza pelo uso do pão sem fermento. Como festa familiar que se celebrava em casa, converteu-se a partir do rei Josias em uma festa de peregrinação a Jerusalém. Desde então, segue mantendo seu caráter de festa familiar, mas foi acrescentada a obrigação de celebrá-la na Cidade Santa.

Na cerimônia se distinguem dois momentos: os preparativos e a ceia.
·         os preparativos: começavam na noite de 13 para 14 de Nisã; à véspera da Páscoa, à tarde, tinha lugar o sacrifício do cordeiro; ao cordeiro, que era o alimento principal, acrescentam-se também vinho, pão, ervas amargas, alface e uma espécie de compota.
·         a ceia: para celebrá-la, levava-se em conta que se assemelhasse a um banquete grego ou romano; começava com a preparação do primeiro copo de vinho, durante a qual o pai de família pronunciava uma série de louvores dirigidos a Deus.

Na comunidade de Qumran, a páscoa era celebrada sempre numa terça-feira e sem cordeiro pascal imolado ritualmente. De Qumran obtemos os seguintes dados: a data da páscoa difere da oficial de Jerusalém; a páscoa poderia ser celebrada sem cordeiro sacrificado ritualmente; em Qumran tinha especial importância a bênção do pão e de vinho.

Pentecostes
A festa das semanas, da colheita ou das primícias é mais conhecida pelo nome grego de pentecostes. É a segunda grande festa anual. Seu sentido consistia na simples demonstração de agradecimento a Deus, expressa mediante os frutos de seu trabalho, portanto, terminada a colheita, o homem devia dar graças a Deus oferecendo-lhe algo em proporção aos bens recebidos.

Tabernáculos
A festa dos tabernáculos, tendas, cabanas, choças é a da colheita. Era a mais importante e frequentada; por isso se chama também festa de Iahweh ou, simplesmente, a festa. É agrícola, relacionada com o momento em que se guardam os produtos do campo, no outono.



PARTE III – “SE QUERES SER PERFEITO...”


Os essênios

1.Origens do movimento e relação com Qumran
O movimento essênio surge na Palestina no final do século III ou começo do século II a.C., antes de estourar a crise do helenismo, e tem suas raízes na tradição apocalíptica, como demonstram alguns aspectos da teologia essênia: o determinismo, a forma de interpretar as escrituras, a comunhão com o mundo angélico e a concepção do Templo escatológico.

Por volta do ano 130 a.C. houve uma grave crise dentro do movimento, não por causa de motivos intelectuais e teológicos, mas práticos. Segundo os documentos de Qumran, um certo mestre da justiça, baseando-se em uma revelação pessoal de Deus, propõe o uso de um novo calendário litúrgico e interpreta de forma distinta as prescrições bíblicas relativas ao templo, ao culto e à pureza de pessoas e coisas. A partir desse instante se dá a divisão. O mestre da justiça e seu grupo retiram-se para Qumran, enquanto o resto dos essênios segue vivendo nas cidades do país. Mesmo assim, existe uma estreita relação entre os essênios e Qumran, apesar desta comunidade supor uma sucessão dentro do movimento.


2. Os testemunhos antigos sobre os essênios
A dificuldade maior na hora de interpretar os documentos antigos está em saber quando eles falam dos essênios em conjunto e quando falam da comunidade de Qumran. Complexos parecem ser os testemunhos de Josefo e Fílon de Alexendria. Eis o que informa o primeiro sobre os essênios: ausência de sacrifícios no templo; plena dedicação à agricultura; o movimento é formado por quatro mil membros; não admitem a escravidão e, a comida e a bebida são preparadas pelos sacerdotes. O testemunho de Fílon de Alexandria confirma tudo isso, mas há algumas diferenças entres eles. Para Josefo, os essênios dedicam-se exclusivamente à agricultura; segundo Fílon, uns trabalham a terra e outros praticam diversos ofícios. Com respeito aos sacrifícios, Fílon nega que ocorram entre eles, enquanto Josefo diz que não ofereciam sacrifícios no templo, mas sim, em local privado.

3. Relações entre cristãos e essênios
Semelhanças e diferenças entre Jesus e os essênios.
·         Semelhanças: o triplo preceito de amor a Deus, à virtude e ao próximo; virtudes valorizadas – justiça, fidelidade, amor, hospitalidade; comunhão de bens; organização da comunidade; crença na imortalidade e em um prêmio e castigo depois da morte; ausência de juramentos e de sacrifícios; valorização dos escritos dos antepassados.
·         Diferenças: com relação à mulher, às crianças, ao matrimônio e a vida em comunidade.


Saduceus e fariseus

1.Os saduceus
É freqüente derivar o nome deste grupo de Sadoc, o Sumo sacerdote do tempo de Salomão. O grupo estava composto em grande parte por sacerdotes, mas eles não constituam a totalidade. Seu traço mais destacado é que pertenciam à aristocracia. Além de sua condição de aristocratas, havia outro traço característico: só reconheciam a Torá escrita como normativa e rechaçavam o conjunto da interpretação tradicional e seu desenrolar ulterior ao longo dos séculos, ou seja, as tradições dos antepassados. Negavam a ressurreição dos corpos, a existência de anjos e espíritos e afirmavam que o bem e o mal estavam ao alcance da escolha do homem e que este pode fazer um ou outro dependendo de sua vontade.

2.Os fariseus
Diversas hipóteses apresentam os fariseus como uma seita dentro do judaísmo, um poderoso grupo de liderança religiosa, um grupo de liderança política, um grupo de pessoas cultas, um movimento laical rival do sacerdócio ou um grupo de classe média composta por artesãos urbanos. O termo “fariseu” procede do aramaico Perisha (hebraico Parush), derivado do verbo Perash (em hebraico Parash), que tem duas interpretações: “explicar” e “separar”. No primeiro caso, fariseu significa “o intérprete”; no segundo, “o separado”. Todavia, para falar dos intérpretes da lei, usa-se o termo darshamim; é mais provável que fariseu signifique originariamente “separado”.

Há duas tendências, com relação ao surgimento dos fariseus. Uma os remonta ao século V a.C., à época de Esdras; outra os coloca no século II a.C. Segundo Flávio Josefo, os fariseus já existiam perto do ano 150 a.C. Em suma, Fariseus é um grupo heterogêneo de sacerdotes e leigos, gente influente e gente humilde, pessoas cultas e simples artesãos, que reivindicam o direito e o dever de serem santos. Dito de outra forma, o direito e o dever de cumprirem as normas de pureza ritual, que certos grupos restringem aos sacerdotes. Outro aspecto essencial dos fariseus é a sua valorização da lei oral às tradições dos antepassados.



PARTE IV - O POVO


O contexto social

1.A classe governante
Formavam parte dela os descendentes de Herodes, a aristocracia sacerdotal e a nobreza leiga.

1.1.A corte
Durante a vida pública de Jesus, existiam a corte de Herodes Antipas e a de seu irmão Filipe.

1.2.O Sumo sacerdote
É aquele que está à frente do clero. Tinha os seguintes privilégios: o único que podia entrar no santuário somente uma vez por ano, na festa da expiação; podia participar da oferenda de um sacrifício e oferecê-lo até estando de luto, coisa proibida aos demais sacerdotes; na distribuição das coisas sagradas do templo entre os sacerdotes oficiantes, tinha direito de escolher primeiro e presidia o grande conselho, suprema autoridade administrativa e judicial. Seu único dever consistia em oficiar o dia da expiação. Quanto às suas obrigações financeiras, devia pagar o novilho que se imolava na festa de expiação.

1.3.Os sacerdotes dirigentes
Abaixo do Sumo sacerdote havia cinco cargos principais: chefe supremo do templo, chefe dos turnos semanais de sacerdotes, chefe de sacerdotes do turno diário, vigilantes do templo e tesoureiros.

1.4.Os Sumos sacerdotes
Sumos sacerdotes em sentido estrito, isto é, o sumo sacerdote que ocupava o cargo e seus predecessores e, em segundo lugar, os membros das famílias nobres nas quais se escolhiam os sumos sacerdotes. Em sentido amplo, são os sacerdotes chefes, um grupo mínimo de seis pessoas, formado por um sumo sacerdote, um chefe supremo do templo, um guardião do templo e três tesoureiros. A este número mínimo se acrescentam os sumos sacerdotes não mais em exercício e os sacerdotes vigilantes e tesoureiros.

1.5.A nobreza leiga
Ao lado da aristocracia sacerdotal está a nobreza leiga, embora sua importância seja infinitamente menor. É constituída pelas famílias patrícias, cuja importância se baseava em privilégios antigos, que remontavam às vezes à volta do exílio.

2.A classe dos subalternos
Classe dos escribas, burocratas, soldados e generais. Entre estes funcionários encontram-se os publicanos.

2.1.Os escribas
Constituem um grupo muito heterogêneo, ao qual pertencem sacerdotes de elevada categoria, simples sacerdotes, membros do baixo clero, de famílias importantes e de todas as camadas do povo. O único fator do poder dos escribas está no saber. Quem desejava ser admitido na corporação devia fazer um ciclo de estudos de vários anos.

2.2.Os militares
A situação era muito diferente na tetrarquia de Antipas e na Judéia. Na Galiléia-Peréia, os militares deviam formar um exército de mercenários, contratado por Herodes Antipas.

2.3.Os publicanos e os cobradores de impostos

2.4.Os administradores
Apesar de suas origens modestas, sua habilidade para dirigir os negócios os tornavam indispensáveis para os latifundiários, que geralmente não viviam no campo. Podiam exercer uma grande influência nos assuntos econômicos de seus senhores.

3.A classe sacerdotal
Em Israel encontramos uma aristocracia sacerdotal e a grande massa de simples sacerdotes, aos quais devemos acrescentar os levitas.

3.1.Os simples sacerdotes

3.2.Os levitas
Inferiores em dignidade aos outros sacerdotes, não participavam do sacrifício propriamente dito, estavam encarregados somente da música e dos serviços inferiores do templo. Eles eram proibidos, sob pena de morte, como os leigos, de penetrarem no edifício do templo e acercar-se ao altar.

4.A classe dos camponeses
Constituíam a grande massa do povo; a família, que constava de seis a nove pessoas, cultivava um pedaço de terreno de oito ou dez hectares, mais ou menos. A maior parte da colheita serve para satisfazer as próprias necessidades; o resto se leva à cidade para vender ou trocar. Nestas circunstâncias, não estranha que muitos camponeses descuidem do pagamento do dízimo.

5.A classe dos artesãos
A classe dos artesãos abarcava em torno de 5% da população. Em quase todas as sociedades agrárias, a classe dos artesãos era recrutada originalmente entre os camponeses que não tinham posses e os filhos destes, carentes de direitos hereditários, e tais foram sempre as fontes das quais se nutriu.

6.As classes impuras
Formam parte delas as pessoas cuja origem e ocupação as mantinham afastadas da grande massa de camponeses e artesãos.

6.1.Impuros em razão de origem
Israelitas de origem ilegítima, afetados de uma mancha grave, não podem se unir às famílias legítimas. São os bastardos, escravos do templo, filhos de pai desconhecidos, sem família, eunucos.

6.2.Impuros pela profissão
Cuidador de jumentos e de camelos, marinheiro, cocheiro, pastor, vendedor, médico, açougueiro, recolhedor de lixo, fundidor de cobre, curtidor, ourives, preparador de linho, moedor, ambulante, tecelão, barbeiro, tintureiro, sangrador, dono de estabelecimento de banho, jogador de dados, agiota, organizador de concurso de pombos, traficantes de produtos do ano sabático, pastor, cobrador de impostos e publicanos.

6.3.Impuros por doença
Há outro grupo marginalizado pela sociedade, não em virtude de sua origem ou sua profissão, mas de sua doença: os leprosos.

7.A classe dos desprezíveis
Era formada por uma grande diversidade de indivíduos, entre os quais caberia enumerar os pequenos delinqüentes e criminosos, os mendigos, os subempregados itinerantes ou sem trabalho fixo, e em geral todos que seriam obrigados a viver de sua própria criatividade ou da caridade pública.


A resposta de Jesus aos seus contemporâneos

Antes de conhecer a pregação de Jesus, devemos conhecer as esperanças de seus contemporâneos.

1.A esperança dos contemporâneos de Jesus
Quatro aspectos fundamentais para se compreender a esperança dos contemporâneos de Jesus: político-social, religioso, existencial e apocalíptico.
·         Nível político-social: dois fatos condicionaram a esperança judaica deste ponto de vista: apolítica exterior, com a submissão a Roma desde a conquista de Pompeu e lutas de partidos que, em algumas ocasiões, lavaram a uma autêntica guerra civil. Submissão exterior e tensões internas fazem o povo viver uma época de inquietude e descontentamento;
·         Nível religioso: purificação, fidelidade a Deus, experiência profunda do perdão e nova aliança são conteúdos essenciais da esperança de Israel desde a época do exílio. E esta esperança se manteve firme em amplos setores;
·         Nível existencial: a esperança neste nível tem a característica da dimensão pessoal. Nela é o homem só que experimenta a realidade e não o coletivo;
·         Nível apocalíptico: esta corrente não se contenta com esperar a libertação de Israel e novas circunstâncias sociais, econômicas ou religiosas. Para esta, a história chegou a seu ponto culminante e o fim do mundo é iminente.
·         O Reino de Deus: esta categoria engloba os quatro aspectos anteriores. Era a grande esperança dos judeus. A concepção de Deus como rei é muito antiga, anterior à própria existência da monarquia em Israel. Mais tarde Deus escolherá um rei humano que governe em seu nome. Porém ele continua sendo o verdadeiro rei de Israel.

2.A resposta de Jesus
O distintivo de Jesus é que ele não se limita a anunciar a chegada do Reino. Ele o antecipa com sua ação, o explica com sua palavra, o torna visível com sua pessoa.

2.1.Jesus antecipa o Reino: as obras
Sua atitude, a do Messias, consistirá em arrancar a doença e a morte do homem, e anunciar a Boa Notícia aos pobres.

2.2. Jesus explica o Reino: as palavras
As palavras de Jesus sobre o Reino têm um caráter de realismo, um caráter desconcertante e um caráter de destruição de falsas esperanças.

2.3.Jesus e o mistério do Reino: sua pessoa
Em definitivo, a pergunta sobre Jesus chega a ser mais importante que a pergunta sobre o Reino. Jesus, com sua pessoa, desvela a glória do reino. Todas as outras promessas e esperanças, por mais magníficas que sejam, ficam válidas diante da manifestação da glória de Deus e de seu Reino na pessoa de Jesus.

3.Entusiasmo, desilusão e esperança
Cada pequeno gesto de Jesus, cada cura, cada pessoa acolhida, a atração que exercia sobre a multidão, tudo anunciava o triunfo da causa e alimentava as expectativas. Porém, quando a vitória parecia iminente, a morte destrói a esperança da libertação de Israel. Então, o entusiasmo cede lugar à desilusão. As palavras e obras de Jesus aparecem agora como inúteis, não antecipam mais o Reino nem refletem sua glória. Porque o decisivo não é a solução concreta de problemas pessoais, pequenos ou grandes, mas a resposta absoluta: a libertação de Israel.


OS FARISEUS


Para compreendermos de forma mais profunda os fariseus, precisamos estudá-los a partir dos seguintes pontos: etimologia do nome, surgimento do grupo, doutrina, formação e modo de vida, aspecto essencial do grupo e a relação do grupo com Jesus no Novo Testamento. Conhecendo todos esses pontos, com certeza, teremos uma visão mais ampla sobre o grupo dos fariseus, que várias vezes são mencionados no N.T., especialmente nos evangelhos.

Partindo da etimologia do nome, podemos dizer que o termo fariseu significa “separado”. Segundo E. Morin, dentro do grupo eles se chamavam companheiros, mas fora eram ditos separados, porque de fato, eles se separavam da massa popular, dos ignorantes e, principalmente, dos pecadores. Para Eduard Lohse, o nome fariseu deriva muito provavelmente do hebraico Perushim ou do aramaico Perishajja e significa, justamente, os separados. Certamente os fariseus passaram à história com esse nome, devido o seu traço essencial ser justamente a concepção de que eram uma comunidade perfeita, santa e, portanto, deveriam se separar dos demais grupos.

Quanto ao surgimento do grupo, acredita-se que surgiu no tempo dos macabeus, quando era necessário defender a fé judaica contra a alienação helenista. Essa também é a concepção de E. Morin ao afirmar que desde os macabeus existiam associações de judeus piedosos e que, no tempo de João Hircano (135-104 a.C.) e Alexandre Janeu (103-76 a.C.), já aparecem referências aos fariseus. Já para nosso autor, Sicre, é muito discutível a data de surgimento dos fariseus. Para alguns são do século V a.C., da época de Esdras, outros os colocam no século II a.C. Há divergências quanto a data de surgimento dos fariseus, mas segundo Flávio Josefo os fariseus já existiam perto do ano 150 a.C.

No que diz respeito à doutrina dos fariseus, fundamentava-se em três crenças: na existência de anjos, na ressurreição dos mortos e no juízo. Tudo isto o diferenciava de alguns grupos, como por exemplo os saduceus, que negavam todas essas crenças. A doutrina dos fariseus se aproxima bastante da de Jesus.

O grupo dos fariseus era considerado um grupo heterogêneo, por ser formado de sacerdotes e leigos, gente influente e gente humilde, pessoas simples e pessoas cultas, que reivindicavam o direito de serem santos. Sicre defende que eles não viviam em mosteiros ou conventos, mas no meio de suas famílias, junto com os seus concidadãos. Diferentemente de Sicre, para Morin os fariseus viviam organizados em comunidade, como também tomavam refeições em comum.

A característica primeira e essencial dos fariseus era a fidelidade à lei. Havia para os fariseus um exclusivismo à lei. Eram vistos como aqueles que procuravam seguir corretamente as prescrições da lei. Eis o que diz Morin a esse respeito:

Sua interpretação escrupulosa da lei os levava a uma observância rigorosa do sábado, a um extremo cuidado com a pureza legal, ao pagamento integral dos dízimos dos mínimos produtos. Com isso, pretendiam impor ao povo em geral, em toda a sua vida, uma pureza totalmente semelhante àquela que devia caracterizar o sacerdote oficiante do templo (1981, p. 111).


No último ponto da nossa abordagem, a relação dos fariseus com Jesus nos evangelhos, queremos destacar a mútua hostilidade entre Jesus e o grupo dos fariseus. Os fariseus são extremamente hostis a Jesus Cristo e assim são frequentemente mencionados nos evangelhos. Basta folhearmos os evangelhos para percebermos que eles estão recheados de hostilidades entre Jesus e esse grupo.

Podemos citar algumas hostilidades dos fariseus com relação a Jesus, com objeção ao poder de Jesus perdoar pecados, atribuição dos milagres a poderes malignos e protestos contra a saudação triunfal dos discípulos a Jesus. Jesus também os criticou constantemente. Em suma, podemos afirmar que o grupo dos fariseus é de extrema importância na compreensão do Novo Testamento. Estudar os fariseus é estudar um grupo que se confrontou várias vezes com Jesus Cristo. Entendê-los, equivale a entender uma parte dos contemporâneos de Jesus.


CONTRIBUIÇÃO DA OBRA PARA O CURSO DE TEOLOGIA

Para poder dizer qual a contribuição da obra de José Luis Sicre para o curso de teologia, primeiramente precisamos saber em que consiste este curso. Como é sabido, teologia é a ciência que estuda Deus, seu objeto é a revelação desse Deus na pessoa de Jesus Cristo. Somente à luz desse pensamento, conseguimos mostrar em que sentido a obra de Sicre contribui com essa ciência.

Se a teologia tem como objetivo entender a revelação de Deus em Jesus Cristo, um ponto essencial nessa ciência é o conhecimento da pessoa de Jesus. Este é um ponto indispensável na reflexão teológica sobre o dado da revelação. Só que para se conhecer Jesus é necessário conhecer também o seu contexto histórico, a sua cultura, as ideologias do seu tempo, os grupos com os quais ele conviveu e como foi que se relacionou com os seus.

Fazendo uma leitura atenta do livro de Sicre, “Um encontro fascinante com Jesus: o mundo de Jesus”, percebemos que todos esses aspectos mencionados são abordados pelo autor. Lendo esta obra, penetramos realmente no mundo de Jesus, conhecemos tanto a história que o precedeu, como a história que foi palco da sua ação. A obra consegue dá uma visão panorâmica do antes e o durante histórico de Jesus.

Portanto, sem muitas delongas, podemos afirmar que é grandiosa a contribuição da obra de Sicre para a compreensão da pessoa de Jesus e, consequentemente, para a ciência que o estuda, isto é, a teologia.




CRÍTICA À OBRA

Temos duas críticas para fazer à obra, uma positiva e outra negativa. A crítica positiva diz respeito à grandiosidade da obra para a compreensão do contexto histórico de Jesus. É impossível ler este livro de Sicre, e não se envolver, não se sentir estimulado a mergulhar cada vez mais na fascinante história do Mestre dos mestres, Jesus de Nazaré.

A única ressalva que é justa fazer, ou seja, crítica negativa, é que faltou ao autor aprofundar mais os temas abordados. Analisando atentamente a obra, sentimos um pouco de superficialidade, falta de aprofundamento.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MORIN, Émile. Jesus e as estruturas de seu tempo. São Paulo: Paulinas, 1981.


LOHSE, Eduard. Contexto e ambiente do Novo Testamento. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 2004.

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