O QUE É UMA FAMÍLIA?


A FAMÍLIA, UM LUGAR PRIVILEGIADO DE ENCONTRO COM
DEUS E DE EXPERIÊNCIA TRINITÁRIA


Pe. José Gilberto BERALDO
Assessor Eclesiástico Nacional do MCC


I. Introdução

1. O que hoje se entende por “família” – Nossos tempos são de muitas mudanças nos costumes, no modo de pensar, no modo de ver o mundo e viver nele, na maneira de falar, de se vestir, de se alimentar, de se relacionar com os outros, etc. A esses comportamentos a gente chama de “cultura”.

Pois bem, o modo de se definir e compreender a família, ou seja, a nossa cultura familiar, também mudou, e mudou muito nos últimos anos, sobretudo de 1950 para cá, isto é, na chamada cultura da pós-modernidade ou da contemporaneidade. Basta ligar a TV, assistir qualquer novela, ler qualquer jornal ou revista ou, mesmo, olhar ao nosso redor, ou, até, em nossa própria família ou conversar com os nossos amigos e vizinhos que a gente logo se dá conta de que, nos dias de hoje quando se fala em “família”, se está falando de muitas maneiras de se entender o que é “família”. “Núcleo familiar heterossexual”, “pessoas que vivem só”, “casal homossexual”, etc. (e muitos etç...).

Alguns estudiosos dizem que podemos entender por família “aquelas pessoas unidas pelo matrimônio e pela filiação, que vivem sob o mesmo teto”. Notamos que o termo “matrimônio” usado aqui, nem sempre é o matrimônio religioso ou mesmo o casamento civil. Pode-se entender o termo como tudo o que acabamos de falar e muito mais.

2. O que aqui queremos entender por “família” – Nós, cristãos católicos, iluminados pela fé na Palavra de Deus anunciada por Jesus e assumida e vivida pela Igreja Católica, entendemos por família, a união de um homem com uma mulher, confirmada pelo sacramento do matrimônio, legitimamente contraído diante de um ministro devidamente reconhecido pela Igreja.

Até há não há muito tempo atrás, além disso, acrescentava-se “com a intenção de procriar”, isto é, com a intenção de “ter tantos filhos quantos Deus mandasse”! Hoje, talvez, já não se fale tão incisivamente da procriação, colocando-se o acento, antes, no amor mútuo. Repito, ainda que não se deixasse de lado a missão maravilhosa da paternidade e da maternidade.

Vejamos o que Jesus fala no Evangelho de São Marcos, a respeito do matrimônio: “No entanto, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formarão uma só carne; assim já não são dois, mas uma só carne” (Marcos, 10,6-8). Portanto, podemos concluir que a primeira intenção, o primeiro projeto de um homem e de uma mulher que querem casar-se, é o amor humano, o amor de atração, o amor de entrega total, o amor que traz prazer e alegria, em fim, o amor que realiza totalmente o homem e a mulher no plano humano. Agora falta o que nós cristãos, acrescentamos por vontade de Deus: o sacramento, isto é, não só uma “bênção de Deus”, mas um “sinal concreto da graça, isto é, da vida divina.

Dessa forma, aquele casamento não é só abençoado, mas Deus começa a participar da vida daquele casal que mergulha a sua própria vida na vida de Deus. É muito lindo e verdadeiro aquilo que o Apóstolo São Paulo disse na sua Carta aos Efésios e que repete, agora, para nós: “Ninguém jamais odiou a sua própria carne. ‘Pelo contrário, alimenta-a e a cerca de cuidado, como Cristo faz com a Igreja. ‘Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe esse unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne’. Este mistério é grande – eu digo em referência a Cristo e à Igreja” (Ef 5,19-32).

Na sua primeira Encíclica “Deus é Amor”, depois de fazer profundas considerações sobre o amor, Bento XVI assim conclui o parágrafo 11: “Aqui há dois aspectos importantes: primeiro, o eros está de certo modo enraizado na própria natureza do homem; Adão anda à procura e «deixa o pai e a mãe» para encontrar a mulher; só no seu conjunto é que representam a totalidade humana, tornam- se « uma só carne ».

Não menos importante é o segundo aspecto: numa orientação baseada na criação, o eros impele o homem ao matrimônio, a uma ligação caracterizada pela unicidade e para sempre; deste modo, e somente assim, é que se realiza a sua finalidade íntima. À imagem do Deus monoteísta corresponde o matrimônio monogâmico.

O matrimônio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e, vice-versa, o modo de Deus amar torna-se a medida do amor humano. Esta estreita ligação entre eros e matrimônio na Bíblia quase não encontra paralelos literários fora da mesma”.

No mês de maio deste ano, com a presença do Papa Bento XVI, realizou-se, em Aparecida, cidade de Nossa Senhora, uma grande reunião, chamada Va. Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe. Nossos Pastores fizeram um documento muito importante sobre a Igreja na América Latina e sua missão. Sobre a constituição da família dizem o seguinte: “A família cristã está Fundada no sacramento do matrimônio entre um homem e uma mulher, sinal do amor de Deus pela humanidade e da entrega de Cristo por sua esposa, a Igreja.

A partir dessa aliança de amor, desdobram-se a paternidade e a maternidade, a filiação e a fraternidade, e o compromisso de todos por uma sociedade melhor (n.433). Outro trechinho importante do mesmo documento: “Cremos que “a família é imagem de Deus, que, no seu mistério mais profundo não é uma solidão, mas uma família” Na comunhão de amor das três Pessoas divinas, nossas famílias têm sua origem, seu modelo perfeito, sua mais bela motivação e seu destino último (n. 434).

3. O que se entende como “lugar” da família – Aquilo que entendemos por comunidade tem uma extensão que vai além de quatro paredes ou de um lugar determinado. Por isso, sendo a família uma comunidade dos filhos e filhas de Deus, ela se realiza lá onde estiver algum participante dessa família: pai, mãe e irmãos. De fato, o “ser família” acompanha todos eles porque está na própria constituição das pessoas que escolheram essa opção.

Diria melhor, está no sangue. E o sangue não se pode fazer de conta que não existe. Tanto assim que os membros de uma mesma família, diz-se que são ligados por “laços de consangüinidade”. Um laço não se desfaz pela simples mudança de lugar. Assim, os membros componentes de uma família, sobretudo da família cristã, não podem deixar de ser família no trabalho, na rua, em casa ou não importa onde tenham sua presença.

E, claro, que todos esses lugares são lugares de encontro com Deus. Porque a graça divina – que é vida – não se desprende ou foge se estou dentro ou fora de casa. Pois se trata do amor. E o amor encharca toda a pessoa, em todo o lugar e em todas as circunstâncias. Tudo isso é verdade. Mas há um lugar privilegiado de encontro da família cristã com Deus.

Note-se que esse “encontro” constitui-se, também, numa nova “experiência” de Deus a cada dia e cada instante. A esse lugar do encontro familiar e da experiência de Deus, convencionamos chamar de “recesso do lar”. Um lugar onde vivem – e não só se encontram de vez em quando – os membros da mesma família. Um lugar que favorece o encontro de uns com os outros. Um lugar de comunhão à mesa e de união entre pais e filhos.

Um lugar de intimidade. Um lugar de diálogo. Um lugar de prazer e de alegria. É ai que a família encontra ou deveria descobrir, a cada dia, a cada hora e cada momento, o lugar privilegiado de encontro com Deus. Mas, para que isso aconteça, é preciso criar um “clima” favorável. É preciso criar situações que ajudem esse encontro. Numa casa onde ninguém se entende, onde só se ouve gritaria (como nas novelas, por exemplo... e existem famílias que reproduzem durante o dia tudo igualzinho que viram nas novelas à noite...) ai será muito difícil – eu diria impossível – pensar num encontro e muito menos numa experiência de e com Deus.

Já na Primeira Aliança, isto é, no Antigo Testamento, podemos ler que “O Senhor não estava no vento impetuoso... nem no terremoto... nem no fogo... mas no murmúrio de uma leve brisa...” (veja no Primeiro Livro dos Reis, cap.19, 11-12). Isso quer dizer que Deus não se encontra no barulho, no ruído, na algazarra, nas brigas ou nas discussões inúteis e vazias de conteúdo. Deus só poderá ser encontrado entre os que estão “reunidos em nome dEle”, num clima de paz e de tranqüilidade. Sem dúvida, à família também podemos aplicar a palavra de Jesus quando nos diz: “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20).

Mas – podemos perguntar – quando acontece esse encontro no seio da família? Em que ocasiões podemos perceber a presença de Deus, a presença de Jesus e do Espírito Santo? Será que a gente “vê Deus em carne e osso”? Não. Não se trata de “ver” com os olhos da carne, mas com os olhos da fé. Pode ser que alguma vez a gente “sinta” a presença de Deus para um encontro mais profundo e mais pessoal. Mas também esse “sentir” refere-se muito mais a um sentir espiritual, do que um “sentir” digamos, físico. Outra observação muito importante é que estamos falando aqui de um “encontro com Deus e de uma experiência dEle na família”, isto é na comunidade familiar, no conjunto dos membros da família e não só num encontro pessoal.


II. Encontro com Deus ou experiência de Deus: especialmente em que momentos?

Não necessariamente pela ordem de importância, podem-se enumerar alguns momentos mais significativos que marcam, na família cristã, o lugar de encontro com Deus. Lembremos alguns:


1. No encontro inicial, na raiz da família cristã. O encontro inicial de uma família com Deus e com a sua graça acontece no momento em que se inicia a família cristã. Ai, então, começa a acontecer uma indizível experiência de Deus, que é a própria experiência do amor humano. Esse momento é quando o casal – homem e mulher – dando-se as mãos, diante de Deus e da comunidade, prometem, um ao outro, “fidelidade, amor e respeito na alegria e na tristeza, na
saúde e na doença, todos os dias de minha vida”.

Realiza-se, então, o sacramento, “sinal eficaz e concreto da graça de Deus...” na vida em comum que se inicia. Pois se trata, como vimos acima, do início de uma comunidade, imagem da Comunidade divina: Pai, Filho e Espírito Santo. Nasce agora a família cristã. É quando acontece ainda em germe, o primeiro encontro da família com Deus.

Encontro único e base de toda a felicidade da família. É no coração do mistério trinitário que começa a grande aventura da experiência de Deus. Isto é, a experiência de saborear, embora sem entender plenamente, o gosto do amor que une o Pai ao Filho, o Filho ao Espírito Santo e o Espírito Santo como o laço de amor entre o Pai e o Filho.

Vale a pena repetir uma citação feita acima: “Cremos que “a família é imagem de Deus, que, no seu mistério mais profundo não é uma solidão, mas uma família”. Na comunhão de amor das três Pessoas divinas, nossas famílias têm sua origem, seu modelo perfeito, sua mais bela motivação e seu destino último. Não posso omitir, aqui, a lembrança da família como “igreja doméstica”. O Papa Bento XVI na sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Sacramentum Caritatis” sobre a Eucaristia, assim se expressa a respeito do tema: “Por isso, a Igreja manifesta uma particular solidariedade espiritual a todos aqueles que fundaram a sua família sobre o sacramento do Matrimonio. A família – igreja doméstica – é um âmbito primário da vida da Igreja, especialmente pelo papel decisivo que tem na educação dos filhos” (n.27).

2. Na oração em comum. Todos nós conhecemos aquela afirmação que diz que “a oração é a força da pessoa e a fraqueza de Deus”. Se isso é verdadeiro para todas as pessoas, é muito mais para a família que é uma família de Deus. E todo o clima, toda a convivência familiar é uma oração contínua porque Deus está ali presente.

E, de maneira especial, os momentos de oração comum em família, são momentos de encontro com Deus e de experimentar o sabor de sua intimidade. Sabemos por experiência, como é tão difícil a família reunir-se para uma oração. Para ver a TV, não. Ai é fácil. Diria, quase que obrigatório. Porque, então, não encontramos tempo para rezar juntos? E, por falar em rezar, não só a oração tradicional, de boca.

Mas a oração na qual, estando todos juntos, cada um fala com Deus, expondo a Ele suas alegrias e tristezas, suas dificuldades e vitórias e, sobretudo, suas esperanças dando-se as mãos e pedindo uns pelos outros ao Senhor Jesus. Com certeza, pela oração em comum, a família vai fortalecer-se cada dia mais, valorizando o que é essencial na convivência e deixando de lado o que não é tão importante.

Vejamos o que nos diz aquele precioso Documento dos Bispos sobre a oração em família: “apesar de tantas feridas e divisões, a presença invocada de Cristo através da oração em família nos ajuda a superar os problemas, a curar as feridas e abre caminhos de esperança” (n.119).


3. Na Eucaristia - Impossível falar da família cristã como lugar de encontro e da experiência de Deus, sem falar da Eucaristia. Melhor, da freqüência da família à Eucaristia que, ainda nas palavras de Bento XVI no Documento citado logo acima, é o “Sacramento esponsal”. E prossegue: “A Eucaristia, sacramento da caridade, apresenta uma relação particular com o amor do homem e da mulher unidos em matrimônio.

Várias vezes o Papa João Paulo II teve ocasião de afirmar o caráter esponsal da Eucaristia e sua relação peculiar com o sacramento do Matrimônio: ‘A Eucaristia é o sacramento da nossa redenção. É o sacramento do Esposo e da Esposa’. Aliás, “toda a vida cristã tem a marca esponsal entre Cristo e a Igreja. Já o Batismo, entrada no povo de Deus, é um mistério nupcial; é, por assim dizer, o banho de núpcias que precede o banquete das bodas, a Eucaristia”.

E, ao referir-se ao consentimento e ao vínculo conjugal, Bento XVI assim se expressa: “Neste (no matrimônio cristão) em virtude do sacramento, o vínculo conjugal está intrinsecamente ligado com a união eucarística entre Cristo esposo e a Igreja esposa (cf.Ef 5,31- 32). O consentimento recíproco, que o marido e a esposa trocam entre si em Cristo constituindo-os em comunidade de vida e de amor, tem também uma dimensão eucarística; com efeito, na teologia paulina, o amor esponsal é sinal sacramental do amor de Cristo pela sua Igreja, um amor que tem seu ponto culminante na crua, expressão das suas ‘núpcias’ com a humanidade e, ao mesmo tempo, origem e centro da Eucaristia” (id. n.27).

Ao trazer aqui essas citações de tão importante documento da autoridade papal, creio já bastante e suficientemente enfatizada uma preciosa e insubstituível fonte de lugar e encontro e de experiência de Deus na família cristã.

4. Na Palavra de Deus lida refletida e vivida em comum. Se a palavra de Deus expressada na Bíblia e, sobretudo, nos evangelhos por conterem as intervenções diretas de Jesus, são fundamentais para todos os seguidores e discípulos de Cristo, com muito maior razão deveria ser um lugar insubstituível do encontro da família com Deus.

Para que isso aconteça muito contribuirá a adoção do costume de, logo pela manhã, antes de sair para o trabalho, reunirem-se por alguns minutos, pais e filhos, e, lendo algum trecho da Bíblia, por exemplo, o evangelho do dia, fazerem-se alguns comentários partilhados entre todos, firmando-se alguns propósitos para o dia.

Tendo em vista alguma situação concreta ou algum fato ou problema pelos quais está passando a família, concretizar alguns gestos – ainda que parecendo pequenos – e projetar atitudes que venham corresponder aos valores propostos por Jesus e acabados de ler naquela manhã. Conheço algumas famílias (até por testemunho pessoal pelo fato de, às vezes, hospedar-me com algumas delas) em que tal prática constitui-se em precioso instrumento de unidade e de construção da paz familiar.


5. Na alegria da convivência e do prazer humano. São momentos esses de intensa presença de Deus na família. De fato, o nosso Deus é um Deus alegre, melhor, é fonte da mais pura alegria, ao contrário do que pensam muitos cristãos católicos. Lê-se no Livro de Neemias: “... a alegria do Senhor será a vossa força” (Ne 8,10). E no Salmo 43: “Irei ao altar de Deus, ao Deus que é minha alegria e meu júbilo” (Sl 43,4).

Pois bem, nosso Deus alegre está presente nas horas de convivência familiar, de troca de carinho e de divertimento, nas brincadeiras sadias, nas viagens ou férias quando toda a família tem a oportunidade de estar junta e, entre os esposos, nos momentos de intensa intimidade, de profundo prazer humano. Tudo isso foi o que Ele criou para nós e conosco Ele se alegra quando usufruímos legitimamente os dons de sua bondade.

6. Na partilha do ser e do ter. No contexto de família, a partilha está divinamente expressada na oração que Jesus nos ensinou, o Pai-Nosso. Primeiramente a partilha do ser. Ao Pai “que está no céu”, chamamos de “Pai nosso”. Ele não nos ensinou “pai meu”, mas “pai nosso”. Essa é a partilha do ser. Ser pai e mãe não é possuir uma qualidade, mas é ser na sua essência o início de uma vida. A partilha começa a acontecer no momento supremo do amor.

Depois, a partilha do ter. Isto é, a educação dos filhos, a sustentação da família, a generosidade para com o mais fraco, o carinho entre todos, tudo isso manifesta a partilha de tudo o que se tem. Jesus nos ensina a pedir o “pão nosso” e não o “pão meu”! Nos dias de hoje, de tanto egoísmo e de tanto anseio de acumulação, chega a ser comovente a atitude daqueles filhos que, na velhice dos pais sabem reconhecer toda a dura luta pela vida pela qual eles passaram.

Atitudes que deveriam ser normais por parte dos filhos, acabam sendo uma exceção nos dias de hoje, pois aparece como essencial a preocupação com o montante de herança que a cada um vai tocar. Desde cedo, portanto, deveria educar-se toda a família para a partilha em todas as dimensões: a do ser e a do ter. Ao praticá-la, torna-se concreta uma nova e fascinante “experiência de Deus”, pois se trata da experiência concreta do amor e da fraternidade.

7. Na compreensão mútua, valorizando as qualidades e superando os defeitos. Na vida em comum, sobretudo nessa comunidade tão restrita como é a família, costuma aparecer mais os defeitos e limitações de cada um, do que as virtudes e as qualidades que, aliás, todos têm.

As mesmas orientações que São Paulo dá a toda a comunidade cristã, deveriam estar presentes na família como uma experiência e um lugar de encontro com Deus. É marcante todo o capítulo 12 da Carta de São Paulo aos Romanos. Vontade seria de transcrevê-lo por inteiro. Mas lembremos, apenas, alguns versículos: “Pela graça que me foi dada, recomendo a cada um de vós: ninguém faça de si uma idéia muito elevada, mas tenha uma justa estima... Como, num só corpo, temos muitos membros, cada qual com uma função diferente, assim nós, embora sendo muitos, somos em Cristo um só corpo... O amor seja sincero... que o amor fraterno una uns aos outros, com terna afeição, rivalizando-vos em atenções recíprocas... Abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis... mantende um bom entendimento uns com os outros...” (Rm 12, 3-4.9.14)

E, para coroar esses preciosos conselhos: “Na medida do possível e enquanto depender de vós, vivei em paz com todos...Não te deixes vencer pelo mal mas vence o mal pelo bem” (Rm 12 18.21).


8. No perdão mútuo. Esse é o momento supremo do lugar de encontro com Deus e da experiência mística no contexto familiar. Não vamos repetir aqui tudo o que cada cristão, inspirado pela palavra, pela vida e pelo testemunho pessoal de Jesus, deveria adotar com princípio normativo para sua vida. No seio da família é que se apresentam as mais oportunas e freqüentes ocasiões de se vivenciar a virtude do perdão que, em algumas situações, pode chegar ao nível do heroísmo. De fato, em muitos casos, a vida familiar pode comparar-se a uma panela de pressão.

A pressão de animosidade vai subindo, subindo até chegar ao limite da fervura. O que seria, então, perdoar? Mal comparando, seria com um gesto simples, levantar o pino da válvula da panela e deixar escapar a pressão! O amor é a fonte do perdão... O perdão estabelece a paz... A paz facilita a convivência familiar... A convivência gera a alegria... O amor, a paz, a convivência, o perdão levam à felicidade de todos na família. Então: o perdão é o grande momento nesse lugar de encontro e de experiência de Deus na família cristã!

O perdão e a misericórdia são a grande novidade da Boa Noticia anunciada por Jesus. Tanto mais se concretiza essa experiência de Deus através do perdão quanto mais se leva em conta que o perdão não é apenas um gesto ou um ato transitório, mas o perdão é um processo.

Às vezes e em muitos casos, um longo processo de superação. Sobretudo num clima familiar, onde, necessariamente, as pessoas têm que estar sempre próximas, partilhando a mesma mesa e pisando o mesmo chão. Então, que pai, mãe e filhos saibam repetir constantemente: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos ofendem...”.

9. No diálogo. Esse é um termo, um conceito e um costume que vão perdendo seu significado na sociedade e na cultura da pós-modernidade. Isso porque, na mentalidade dos tempos que correm, cada um quer fazer valer sua própria subjetividade, isto é, quer fazer-se notar como o melhor ou como o que tem a última palavra ou como o que tem a melhor visão das coisas e do mundo impondo dessa forma a sua opinião e a sua suposta liderança familiar.

No seio da família onde cujos membros mais raramente se encontram, o diálogo torna-se difícil, sobretudo quando pais e filhos têm trabalho ou estudo que lhes tomam todo ou quase todo o tempo fora de casa e todas as preocupações estão dirigidas para outros focos que não a família. As pessoas vão-se distanciando mesmo que vivendo debaixo do mesmo teto. A tal ponto que, em vez de dizer-se “vivendo” poder-se-ia dizer “dormindo debaixo do mesmo teto”.

Se a família cristã quiser, de verdade, ser um lugar de encontro e de experiência de Deus, terá que abrir espaço e tempo para o diálogo entre seus membros. De uma comunidade cujos membros não conversam entre si, que não encontram tempo para confidências e troca de idéias sobre a realidade que estão vivendo ou que não criam espaço para dialogar, planejando seu dia a dia ou desfazendo mal-entendidos, não se pode dizer que seja uma comunidade pacífica e bem intencionada.

Portanto, a família cristã que é uma comunidade, imagem da Santíssima Trindade, deve sempre buscar o tempo e o espaço para esse sadio diálogo quer leve ao estreitamento das relações e ao fortalecimento do amor mútuo. Só assim haverá sólidas garantias de uma convivência modelar pautada no amor e na caridade de Cristo. Se o nosso Deus não fosse o Deus do “diálogo” do Pai com o Filho e de ambos com o Espírito Santo não teríamos tido a presença do Verbo encarnado e nem teríamos feito a experiência de um Deus-Amor, de um Deus- Perdão, de um Deus-Pai.

Concluindo, com o Documento de Aparecida: “No seio da uma família, a pessoa descobre os motivos e o caminho para pertencer à família de Deus. Dela recebemos a vida, a primeira experiência do amor e da fé. O grande tesouro da educação dos filos na fé consiste na experiência de uma vida familiar que recebe a fé, que a conserva, que a celebra, a transmite e dela dá testemunho. Os pais devem tomar uma nova consciência de sua feliz e irrenunciável responsabilidade na formação integral de seus filhos” (n.118). IV.



III. A família, lugar de encontro com Deus e de prática de sua experiência, é família missionária


Nesse momento da convocação geral feita pelos nossos Pastores, na Conferência de Aparecida, para a Grande Missão Continental, é impossível não lembrar aqui o papel da família nesse projeto evangelizador da América Latina.

Uma família que é lugar de encontro com Deus e onde dEle se faz uma experiência indescritível, torna-se uma família missionária. Missionário é aquele que “é enviado”, que “sai” para mostrar ao mundo o rosto de Jesus. E não só as pessoas individualmente são chamadas a ser missionárias. Aliás, a missão de evangelizar, de mostrar Jesus a quem não o conhece, produz mais frutos quando é praticada por um grupo de cristãos. Ora, uma família que procura ser lugar de encontro com Deus, tem uma força indescritível na missão de evangelizar, pois é uma comunidade, reprodução da comunidade da Santíssima Trindade. Isso não quer dizer que todos os membros da família tenham que sair de casa para esse trabalho.

Uma família que é lugar de encontro com Deus é, antes de tudo, testemunho de vida para as outras famílias da vizinhança, do bairro, da cidade e, para começar, para as famílias dos próprios parentes. A família, sob a ótica da fé, torna-se lugar de irradiação desse encontro com Deus. Portanto, de irradiação da fé, do amor encarnado da Santíssima Trindade, da solidariedade e do perdão. O Papa Paulo VI afirma que “evangelizar é, em primeiro lugar, dar testemunho”.

Todos nós sabemos quando uma família é testemunha de Jesus. Se, por exemplo, daquela determinada casa só sai gritos, xingamentos, correrias, choro e coisas semelhantes, manifestando-se com uma fonte de violência doméstica, dá para saber que ali é mais um inferno do que uma família; que é mais um lugar de desavenças e de separação do que de uma comunidade de filhos e filhas de Deus.

Em contrapartida, todos sabem quando tal família daquela rua ou daquele quarteirão é lugar de encontro com Deus. Sendo a família a célula inicial de toda a sociedade e o embasamento da comunidade cristã, podemos afirmar que toda a Igreja será verdadeiramente missionária quando essa mesma família ou essas famílias forem profundamente missionárias.


Pe. José Gilberto Beraldo
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