A CARTA DE TIAGO

a carta de tiago

Introdução:

A Carta de Tiago é um escrito de caráter sapiencial, isto é, mostra a sabedoria do discernimento cristão diante das situações. Dirige-se a todas as comunidades cristãs, simbolizadas pelas “doze tribos” do novo povo de Deus. A carta é pouco conhecida dos cristãos de hoje. Muitos estudiosos a vêem com suspeita, e só se lembram que nela se encontram os textos mais fortes contra os ricos.
Mediante isto, podemos dizer que ela é um pouco esquecida, estudada em segundo plano, por parte de alguns como se fosse um retrocesso ou estivesse sido escrita em oposição aos escritos de Paulo. Paulo afirma que a justificação vem pela fé, e não pelas obras. Tiago, porém diz que a fé sem as obras é cadáver. Como entender? Estão em contradição? Quem falou por último?
Esta carta é mensagem tipicamente cristã, como os Evangelhos; reduz toda a Lei judaica ao mandamento do amor ao próximo (Tg 1, 25; 2, 8. 12). Pode-se dizer que é explicação das exigências desse mandamento em diversas circunstâncias: igualdade cristã (Tg 2, 1-4), preferência pelos pobres (Tg 2, 5-7), amor ativo (Tg 2, 14-17). Esse amor exclui a exploração, e nesta carta encontramos a mais violenta passagem do Novo Testamento contra os ricos (Tg 5, 1-6).
A abordagem que o autor faz acerca da fé, é vista como dinamismo que produz ação e que só é madura quando se expressa em atos concretos (Tg 2, 20-26); é fé que rejeita qualquer espiritualidade ou religiosidade individualista e intimista (Tg 1, 26-27). Ora, iremos constatar que da mesma forma a verdadeira sabedoria, se expressa pela conduta (Tg 3, 13-16).
Tiago rejeita a consagrada separação entre dimensão vertical e dimensão horizontal da vida cristã: “do mesmo modo que o corpo sem o espírito é cadáver, assim também a fé: sem as obras é cadáver” (Tg 2, 26). E são estas as obras citadas no contexto: dar de comer ao faminto e vestir o nu (Tg 2, 15-16; cf. Mt 25, 35-36). Na verdade, como veremos, a carta é um verdadeiro tesouro da tradição cristã primitiva, e os cristãos de hoje têm muito a aprender com ela, principalmente com as situações que ela espelha.


Autor e data


A questão do autor traz o problema da data em que foi escrita a carta. Acontece que no Novo Testamento encontramos três Tiagos: Certamente não é Tiago, irmão de João e filho de Zebedeu (Marcos 1, 19). É praticamente impossível vê-lo como o autor já que era um simples pescador e morreu mártir no ano de 44 (Atos 12,2). Também é impossível pensar que seja o Tiago, filho de Alfeu (Marcos 3, 18), já que é praticamente desconhecido e desaparece no cenário do Novo Testamento.
Tiago, “irmão do senhor” (Marcos 6, 3). Este é o mais provável, pois ocupou lugar de importância na Igreja primitiva. Paulo afirma que ele é uma das colunas da Igreja de Jerusalém, ao lado de Pedro e João (Gálatas 2, 9). Com efeito, esse Tiago tinha função diretiva naquela comunidade (Atos 12, 17) e sua intervenção foi importante no Concílio de Jerusalém (Atos 15). Muitos vêem nele o autor dessa carta.
Mas há problemas, Tiago “irmão do Senhor”, foi martirizado no ano 62, o que daria uma data muito antiga para a carta, deixando-a bem perto das atividades de Paulo. Por outro lado, o grego da carta é um dos melhores do Novo Testamento, superando inclusive o de Lucas. Conheceria Tiago tão bem a língua e as técnicas de retórica do mundo grego? Hoje em dia é encaminhada uma nova solução. Quem teria escrito a carta seria um judeu-cristão de formação grega, e ela teria sido escrita na Palestina, talvez em Jerusalém, pelo fim do século I, entre os anos 80 e 100. Tal autor anônimo teria recolhido as tradições de Tiago, “irmão do senhor”, que estavam vivas na Palestina, atribuindo a ele a carta como homenagem póstuma.
Tais tradições teriam muita semelhança com as tradições que formaram os evangelhos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas), testemunhando o Evangelho vivo que existia em Jerusalém e nas comunidades formadas por Judeu-cristãos. Esta é a hipótese que melhor explica os problemas referentes à língua e aos temas tratados na carta.


Destinatários


“tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos espalhadas pelo mundo: saudações!” (Tg 1, 1). Este endereço e saudação já unem Antigo e Novo Testamento ao mencionar Deus e Jesus e, mais ainda, ao se referir aos cristãos como “doze tribos”. Assim como o povo da antiga aliança era formado pelas doze tribos de Israel, o novo povo de Deus é agora chamado de “doze tribos”. Pode-se ver na expressão um toque simbólico, já que na Bíblia o número doze simbolicamente exprime totalidade: todas as comunidades.
Essas comunidades às quais se dirige o autor encontram-se espalhadas fora da Palestina, dentro do mundo Greco-romano. Eram provavelmente formadas por Judeus convertidos ao cristianismo, mas fortemente influenciados pelo mundo grego. Isso explica o largo uso que o autor faz das Escrituras em grego, que ele cita livremente, misturando com temas típicos cristãos. Segundo Atos (2, 5-11), pelo fim do século I há cristãos de origem judaica espalhadas por todas as regiões do Oriente Médio. É provável que tais cristãos ainda freqüentassem as sinagogas, cultivando as antigas Escrituras ao lado do Evangelho cristão.


conteúdo da carta


A provação amadurece a fé

Como vemos na saudação acima por parte do autor da carta, ele diz a expressão: “doze tribos”, com isto, ele quer mostrar que os cristãos formam a Igreja, o povo da nova Aliança. Eles estavam espalhados em meio aos pagãos que, em geral, eram hostis. A carta procura animá-los e sustentá-los no testemunho. Vejamos:


“Meus irmãos, fiquem muito alegres por terem que passar por todo tipo de provações, pois vocês sabem que aprendem a perseverar quando sua fé é posta à prova. Mas é preciso que a perseverança complete a sua obra em vocês, para que sejam homens completos e autênticos, sem nenhuma deficiência” (Tg 1, 2-3).


O cristão se alegra, não por ter provações, mas porque elas o ajudam a descobrir o sentido e o valor do testemunho de sua fidelidade a Deus e a Jesus Cristo. A provação abala o entusiasmo infantil, romântico e descompromissado, fazendo o cristão perceber que a fé é compromisso que exige sérias transformações na pessoa e no contexto social em que ela vive.
Ora, as provações a que Tiago se refere não são as dificuldades comuns da vida, os problemas e contratempos que todo mundo encontra no seu dia-a-dia. É sim o resultado do choque do Evangelho com uma sociedade que tem projetos diferentes e até contrários ao projeto de Jesus. Quando a comunidade segue realmente a Jesus e se empenha em continuar o seu projeto, então surgem as reações externas, em geral hostis à comunidade cristã.
O autor diz que a comunidade deve ficar alegre e feliz quando é provada, hostilizada, perseguida. Isso que parece um contra-censo encontra seu motivo último no fato de comprovar e confirmar a fé da comunidade. Ela está sendo perseguida da mesma forma que Jesus, e isso é sinal de fé autêntica. Quando uma comunidade não é perseguida ou hostilizada ou marginalizada pode-se levantar a suspeita de que o seu compromisso com Jesus está abalado ou que o fermento do Evangelho perdeu completamente a sua força.    


Sabedoria para testemunhar

A sabedoria é o exercício do discernimento, a capacidade de perceber o que é mais importante fazer dentro das situações. Poderíamos dizer que o tema da sabedoria é o principal desta carta. O autor na verdade produziu um escrito sapiencial cristão, retomando a tradição do Antigo Testamento e dando-lhe uma nova interpretação à luz de Jesus e do Evangelho.
A carta põe no centro a verdadeira sabedoria que vem de Deus. “Se alguém de vocês tem falta de sabedoria, que peça a Deus, e Ele a dará, porque é generoso e dá sem impor condições” (1, 5). E a contrapõe à falsa sabedoria, descrevendo as duas atitudes vejamos:


“Essa não é a sabedoria que vem do alto. Ao contrário, é terrena, egoísta, demoníaca! Onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más. A sabedoria, porém, que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento” (Tg. 3, 15-17).


A sabedoria do alto, o ensinamento moral revelado do alto, não é obra do ser humano, mas de Deus. O homem pode somente analisá-lo, aprofundá-lo e pô-lo em prática. Trata-se de uma moral objetiva. Ao invés, a sabedoria “terrena, material e diabólica” (Tg. 3, 5) serve muitas vezes para justificar comportamentos amorais. A sabedoria terrena constitui uma tentação permanente do ser humano, quando quer decidir o que é bom e o que é mal.
Assim sendo o verdadeiro sábio é aquele que está sempre voltado para Deus, pedindo que Deus lhe abra o discernimento para que possa entender a vida. Deus dá a luz da sabedoria a quem pedir. No entanto, a sabedoria humana se baseia nas conquistas humanas, que levam ao poder e às competições e rivalidades. A sabedoria que vem do Evangelho, porém, baseia-se no reconhecimento e gratidão pelo dom, que leva à misericórdia, justiça e paz.
Como vimos, há, portanto, uma diferença enorme entre a sabedoria humana e a sabedoria do Evangelho. Se os cristãos afirmam que vivem segundo a sabedoria do Evangelho, mas produzem continuamente competições e rivalidades, estão, na verdade, distorcendo o Evangelho e misturando-o com o espírito arrivista de uma sociedade que não conhece Deus e Jesus.
Fica claro que o autor certamente conhecia essas brigas nas comunidades. Portanto seu apelo é para a conversão: deixar a sabedoria terrena e voltar à sabedoria do Evangelho. Para o autor desta carta a única segurança dos cristãos é estar sempre voltado para o Evangelho.

O pobre e o rico

A comunidade cristã é formada de pobres e ricos convertidos. Os pobres devem orgulhar-se de sua condição modesta, que os deixa em melhores condições para compreender o Evangelho (Mt. 5, 3; 11, 25-27). Ao entrar na comunidade, os ricos perdem seu “status” social e prestígio junto aos outros ricos, pois abrem mão de suas riquezas para dividir seus bens com os pobres (Lc. 18, 18-30; At. 4, 32-35). “Que o irmão pobre se orgulhe de sua alta dignidade, e o rico se orgulhe de perder a sua posição social” (Tg. 1, 9-10a).
Na comunidade cristã as posições ficam que meio invertidas: o pobre tem alta dignidade e o rico perde seu status. Por quê? A carta é um manifesto pela justiça social, para a qual é fundamental a estima da dignidade de cada ser humano, especialmente do pobre, que de um modo particular está exposto às humilhações e desprezo da parte dos ricos e poderosos. Continua-se a defesa dos pobres, já empreendida pelos profetas, especialmente por Amós e Miquéias, mas há também uma dimensão cristológica.
O autor apela para “a fé no Senhor nosso Jesus Cristo, Senhor da glória” (Tg 2, 1). A dignidade de Cristo glorioso é garantia da dignidade de cada cristão redimido com o sangue de Cristo e exclui os favoritismos. Ao se converter o pobre entra numa situação de herdeiro do Reino de Deus (Mt. 5, 3). Mais ainda, ele recebe de Deus o dom da sabedoria (Mt. 11, 25-27), que o deixa em melhor condição para acolher e compreender o Evangelho.
A sorte dos ricos é outra. Ao entrar na comunidade eles perdem o seu status social e prestígio junto aos outros ricos, porque a conversão exige que eles abram mão de suas riquezas para dividir seus bens com os pobres.


a fé se manifesta em fatos concretos

Não tenhamos dúvida que o único meio de salvação é a fé, a adesão a Jesus Cristo. A fé é o compromisso com a pessoa de Jesus que leva a continuar o seu projeto à luz do Evangelho. Para o autor essa fé, porém, não é coisa teórica ou mero sentimento interior; é o compromisso que se manifesta concretamente em atos visíveis (Mt. 7, 21). Tiago toma dois exemplos do Antigo Testamento que podem ser comparados com Hb. 11, 31 e, principalmente, com Rm. 4 e Gl. 3. Vejamos como diz o autor:


“Insensato, quer ver como a fé sem as obras não tem valor? Quando nosso pai Abraão ofereceu o seu filho Isaac sobre o altar, não foi pelas obras que ele se tornou justo? Vocês podem perceber que a fé cooperou com as obras dele, e que pelas obras essa fé se tornou perfeita. E assim se cumpriu a Escritura que diz: ‘Abraão acreditou em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça’. E Abraão foi chamado amigo de Deus. como vocês estão vendo, o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé. Do mesmo modo, a prostituta Raab: ao dar hospitalidade aos mensageiros e ao fazê-los voltar por outro caminho, não foi ela justificada pelas suas obras? De fato, do mesmo modo que o corpo sem o espírito é cadáver, assim também a fé: sem as obras ela é cadáver” (Tg. 2, 20-26).   

           
            Aparentemente, Tiago e Paulo tiram conclusões opostas, ao usar o mesmo exemplo. Notemos, porém: Paulo diz que Abraão se tornou justo por meio da fé, e não mediante a prática da Lei. Tiago diz mais: a fé que justificou Abraão é uma realidade que se traduz na prática de atos concretos. Ao falar de prática da Lei, Paulo afirma que nenhuma observância de regras pode levar à salvação, e que a fé é o princípio de toda a vida cristã. Tiago, por sua vez, salienta que a fé se traduz no amor, e este realiza atos concretos. Paulo diz a mesma coisa: “a fé age por meio do amor” (Gl. 5, 6). Tiago em nenhum momento exclui o ato de possuir fé em Deus, mas diz que ela só se tornará visível com as obras. Portanto, dizer que se tem fé sem praticar obras é viver numa fé abstrata. A prática do evangelho expressa a fé em Deus. Logo, tanto Tiago como Paulo afirmam a mesma coisa.


força e perigo da língua

            Tiago insiste muito em refrear a língua (Tg. 1, 26; 3, 1-12), a ponto de afirmar: “Aquele que não peca no uso da língua é um homem perfeito, capaz de refrear também o corpo todo” (Tg. 3, 2). Na Igreja têm uma particular responsabilidade os mestres (Tg. 3, 1), que podem criar tantas dissensões e divisões na comunidade cristã através do seu ensinamento (ou de seus escritos). Semelhante é a responsabilidade de todos aqueles que têm uma forte e determinante influência sobre a opinião pública. Vejamos o que o autor desta carta diz a este respeito:

“Meus irmãos, não se façam todos de mestres. Vocês bem sabem que seremos julgados com maior severidade, pois todos nós estamos sujeitos a muitos erros. Aquele que não comete falta no falar é homem perfeito, capaz de pôr freio ao corpo todo. Quando colocamos freio na boca dos cavalos para que nos obedeçam, nós dirigimos todo o corpo deles. Vejam também os navios: são tão grandes e empurrados por fortes ventos! Entretanto, por um pequenino leme são conduzidos para onde o piloto quer levá-los. A mesma coisa acontece com a língua: é um pequeno membro e, no entanto, se gaba de grandes coisas” (Tg. 3 1-5a).

           
            A riqueza deste texto faz com que ele possa ser definido como o “código da disciplina da língua”. A linguagem é um dos meios mais importantes para a comunicação entre os homens; mas às vezes ela pode ser usada de forma ambígua: pode construir e pode destruir. Para Tiago, a palavra que o cristão dirige ao próximo deve ser coerente com a palavra que dirige a Deus. Muitas pessoas se apresentam às vezes como “aquelas que sabem tudo”.
            Mediante isto, para Tiago a sabedoria verdadeira adquirida, não é possuir uma cultura teórica que se aprende em livros, mas é a experiência da vida que se manifesta no discernimento que leva a um comportamento justo e pacífico. O verdadeiro sábio é aquele que nunca pára de aprender. Mais do que ensinar, ele é alguém que está sempre disposto a buscar a verdade junto com os outros, sem desfazer dos irmãos. Ora, o problema de algumas comunidades era certamente o da gabolice: muitos querendo passar por mestres e entendidos, gabando-se de um saber que na verdade não possuíam.
            Por fim, não tenhamos dúvida que a linguagem é um dos meios mais importantes para a comunicação, tanto naquela época como nos dias atuais. É, porém, um meio ambíguo, já que pode construir ou destruir. Para o autor deve haver coerência entre a palavra que o cristão dirige a Deus e a palavra que ele dirige ao próximo. Seguindo o pensamento do autor podemos afirmar que a maior demonstração de amor a Deus é saber controlar a língua sem fazer difamação, gabolice, crítica, fofoca em relação ao próximo. Certamente Deus prefere ser amado através do ato de fraternidade, ou seja, onde haja tratamento recíproco de caridade entre seus filhos.


referências:

Bíblia de Jerusalém, Editora Paulus – São Paulo – Brasil – 2002.
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Editora Paulus – São Paulo – Brasil – 1990.
François Vouga, A Carta de Tiago, Edições Loyola – São Paulo – Brasil – 1996.
Pontifícia Comissão Bíblica, Bíblia e Moral, Raízes Bíblicas do Agir Cristão, Edições Paulinas – São Paulo – Brasil – 2009.  

FIQUEM NA PAZ DE DEUS!
SEMINARISTA SEVERINO DA SILVA.

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