FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICO: TEOLÓGICA DA PASTORAL DE COMUNICAÇÃO

FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICO-TEOLÓGICA DA PASTORAL DE COMUNICAÇÃO


Os primeiros capítulos do livro do Gênesis narram, de forma poética, a história da Criação, como primeiro gesto comunicativo de Deus, germe e cenário de todas as outras comunicações que vão acontecendo ao longo da história. No começo dos tempos está a Palavra criadora de Deus, expressão de sua vontade livre, Deus comunica sua Palavra, e o que ele diz é criado. Ele age por meio de sua Palavra e nada resiste ao seu mandato: ao ouvir o som de sua palavra amorosa, a vida desabrocha exuberante. Surgida da Palavra eficaz pronunciada por Deus, a Criação é expressão de seu amor, de sua livre vontade e decisão soberana.
A criação inteira é uma admirável lição de comunicação, e o universo é um hino ao Criador, um cântico de glória, um louvor perene.
Pronunciar uma palavra é voltar-se para alguém; é estabelecer com ele uma relação. Por isso Deus cria o ser humano a sua imagem e semelhança; é a comunicação mais profunda, fruto do amor que os torna semelhantes, que comunica a própria vida. A criação do ser humano é o momento em que a Palavra adquire maior intensidade, se personaliza e se converte em diálogo. Deus cria um interlocutor. A capacidade de falar e a nota característica da comunicação do ser humano, interlocutor de Deus e protagonista de sua história. A história da salvação será uma história de comunicação. Para o homem, a arte de se comunicar é um aprendizado progresso que exige confronto com a alteridade, capacidade de acolher o diferente.
Vale salientar que a comunicação que não gera a vida, que não defende a vida onde quer que ela esteja ameaçada, que semeia a discórdia e a violência, é uma contradição, porque está contra a própria essência da comunicação. Já a comunicação que promove, desenvolve e realiza a pessoa tem seu ponto de referência em Cristo, Palavra viva e eficaz.
O diálogo de Deus com a humanidade, que tem seu inicio na Criação, se prolonga na história da salvação, tendo momentos de crise e de constantes retomadas, sustentadas pelo incansável amor comunicativo de Deus. A comunicação de Deus que sai do seu mistério e vem ao encontro do ser humano, estabelecendo com ele um diálogo de amor em vista da salvação, chamamos de revelação. As sucessivas revelações de Deus conduzem à aliança, compromisso que envolve as duas partes: Deus e o ser humano, na qual a comunicação se converte em comunhão.
Jesus, plenitude da comunicação: dimensão cristológica:
Em Cristo Jesus se sintetizam todos os elementos que constituem o processo comunicativo. Ele é, ao mesmo tempo, emissor, código, conteúdo, meio, mensagem e receptor. A sua comunicação foi uma comunicação interpessoal plena e ao mesmo tempo, informativa, provocativa.
Jesus como mensagem encarnada é também o código do Pai que torna visível seu rosto eterno e misericordioso; e decodificador do projeto do Pai para nós. Nele se realiza um processo de transcodificação do pensamento divino no nível da linguagem humana. A partir da encarnação do Verbo, a experiência de fé comunicacional acontece no cotidiano: na corporeidade, na fragmentação, no provisório, na ambigüidade.
Como Palavra encarnada, Jesus comunica ao ser humano a vida que ele recebe do Pai. A comunicação de Jesus não foi simples manifestação dos pensamentos da mente ou expressão dos sentimentos do coração, mas verdadeira e profunda doação de si mesmo.
O evangelista Lucas sublinha a fidelidade de Jesus comunicando-se com o Pai em atitude de oração: Lc 5,16; 6,12; 9,18; 9,28; 11,1; 22,41.
O gesto supremo da comunicação de Jesus foi a sua morte na cruz e sua ressurreição, comunicação total que se perpetua na Eucaristia, o sacramento da perene comunhão com ele. Por amor Jesus assume a tragédia da dor e da morte, conseqüência do pecado da incomunicação e do desamor, transformando-os em sinal supremo de amor e em caminho eficaz de salvação. De fato, o martírio de Jesus na cruz é a mais contundente comunicação do sentido e da dignidade da vida.
Tomar Jesus Cristo como modelo de comunicador significa fazer próprio o seu método comunicativo na sua essência profunda, certamente não nos seus modos concretos; significa tornar próprio o objetivo redentor que motivou toda a existência terrena de Jesus.
A cultura da comunicação privilegia a imagem, atribuindo-lhe uma força comunicativa especial. Nem sempre é fácil dar uma definição do que é imagem. De modo geral, podemos afirmar que é a ponte que se cria entre o visível e o invisível, entre o abstrato e o concreto. A linguagem bíblica é rica pelo uso de imagens, para exprimir com maior intensidade a relação de Deus com o ser humano. Mas Deus, na história da salvação, não se limitou à mediação da Palavra para se comunicar, mas a estendeu até o limite da encarnação, em que o Verbo assumiu a imagem humana. Jesus de Nazaré é a Palavra e também a imagem viva e perfeita do Deus invisível.
Apresentar Jesus como “imagem do Deus invisível” (Cl 1,15) é ampliar o leque das mediações comunicativas: não só a comunicação auditiva, mas também a comunicação visual. Essa imagem que não se identifica com a preocupação com a estética e a beleza física que a mídia tanto aprecia, mas atinge o mistério do ser humano. A grandeza e a beleza da imagem do Deus invisível que é Jesus pode ser percebida por meio das ações que ele realiza em favor do povo: Mc 1,17; 1, 27; Mt 4,17; Lc 6,12; Mt 12, 15; Jo 14,4.
Trindade, mistério de comunhão: dimensão trinitária:
 A vida intratrinitária é uma profunda e inexaurível comunicação entre as pessoas divinas. O Pai no seu inefável amor gera o Filho, comunicando-lhe tudo que possui. O filho volta-se eternamente para o Pai, entregando-se a ele na perfeita obediência. Já o Espírito Santo procede do Pai e do Filho; é dom perfeito e pessoal do diálogo de amor entre o Pai e o Filho. Ele é o agente central da comunicação intratrinitária. Como agente de comunicação e de comunhão, o Espírito Santo tem a missão de ensinar, de guiar a comunidade até o completo conhecimento da verdade. Podemos dizer que o Espírito Santo é o agente central da comunicação de Deus com a humanidade, da comunicação intereclesial e da atividade missionária da Igreja.
Elemento fundamental da comunhão intratrinitária é o fato de que a união entre as Pessoas Divinas não suprime as diferenças e a individualidade própria de cada uma. Antes, as diferenças são pressupostos da união. O amor é e será sempre um grande e inexaurível mistério de comunhão.
Somente a partir do mistério da comunhão trinitária é possível perceber a sublime vocação do ser humano à comunhão e compreender o verdadeiro significado e o valor da comunicação humana. 

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