BASES BÍBLICAS NEOTESTAMENTÁRIAS PARA À UNIDADE DO POVO DE DEUS


Questionário – Ecumenismo

Capítulo IV
Bases Bíblicas Neotestamentárias
para à Unidade do povo de Deus


      1)  A compreensão da eleição do povo de Israel significa um desinteresse da parte de Deus em relação a outros povos? Não, se assim o fosse Deus seria contraditório. Deus ama a todos e o seu desejo é que a salvação chegue a todas as nações. O desejo de Deus de ter escolhido o povo de Israel como nação para sua revelação, não quer dizer que Deus tenha menosprezado, esquecido e excluído os outros povos. Essa eleição de Deus não tem como fundamento o poder ou a glória própria de Israel, mas a manifestação da graça do Senhor. Vejamos o que diz em Deuteronômio (7, 6-8): “Pois tu és um povo consagrado a Javé teu Deus. Javé teu Deus te escolheu dentre todos os povos da terra, para seu povo particular. Javé se afeiçoou de vós e vos acolheu, não por serdes mais numerosos que os demais povos, na verdade sois o menor de todos e sim porque Javé vos amou e quis cumprir o juramento que fez a vossos pais. Foi por isso que Javé vos libertou com mão poderosa, resgatando-vos do antro de escravidão, das mãos do Faraó, rei de Egito”. É bem verdade que a eleição divina se manifesta através de uma promessa, feita em primeiro lugar a Abraão (Gn 12, 2; 18, 18). No entanto, já com o profeta Elias nós vemos gestos que tentavam mostrar de que maneira a influência de Deus ultrapassava as fronteiras de Israel (1Rs 19, 15-17). Ora, temos também como exemplo Jeremias que foi chamado “profeta das nações” (Jr 1, 5), o que foi corroborado pela própria prática do profeta, que se fez notar por uma pregação que não se dirigia apenas a Israel, mas também a outros povos (cf. Jr 12, 14-17).

    2)  Como podemos entender a posição de São Paulo em relação a tensão criada entre judaizantes e universalistas? Ora, primeiramente a tensão foi criada porque os judaizantes procuravam manter a fé dos seguidores de Jesus em relação com o Templo de Jerusalém. Eles colocavam muitos empecilhos à pregação do Evangelho entre os gentios. Negavam assim a dimensão universal, ecumênica, católica do cristianismo; enquanto os universalistas lutavam por uma dimensão ecumênica nas comunidades cristãs, incluindo todos os povos e todas as nações da terra. Certamente para Paulo a unidade não é conseguida em torno de acordos que põem em jogo os fundamentos da fé cristã. Para ele não se podia pôr em dúvida a dimensão universal da obra de Jesus Cristo, como nos relata o evangelista São Marcos (16, 15). Para Paulo a dimensão da obra salvífica em Jesus Cristo – de sua encarnação, sua morte na cruz e sua ressurreição, era algo que não podia ficar limitado à existência do povo judeu. Tinha um valor universal. É justamente com este pensamento que surge uma disposição nele, de ir ao encontro dos outros (aqueles que não tinham ouvido ainda falar do Evangelho, consequentemente de Jesus Cristo). Com este pensar manteve sempre posições claras em relação da universalidade do Evangelho, sendo firme na defesa de suas convicções, é disto que deriva sua consciência de ser o apóstolo dos gentios (povo pagão).

    3)  Quais as posições teológicas de São Paulo em relação à unidade, que até hoje contribuem para o pensamento ecumênico? Para Paulo não se podia pôr em dúvida a dimensão universal da obra de Jesus Cristo, de sua encarnação, sua morte na cruz e sua ressurreição. Para ele o Evangelho deveria ser pregado também aos gentios, era algo que não podia ficar limitado à existência do povo judeu. E foi justamente isto que aconteceu depois que alguns se reuniram em Jerusalém, participaram desta reunião que é considerada o primeiro concílio da Igreja Paulo, Barnabé, Pedro, Tiago e outros. Eles souberam definir pontos de convergência que permitissem a realização de uma prática comum que uniu todas as comunidades (Atos 15, 29). Nesta reunião Paulo acrescenta coisas que permitem compreender melhor qual era para ele o nível em que deve ser considerado o problema da unidade da Igreja. A questão da existência de divisões no corpo de Cristo tem a ver com o pecado, ou seja, segundo a terminologia paulina, “com as obras da carne”. Elas são bem conhecidas: prostituição, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódios, discórdias, ciúmes, iras, rixas, dissensões, divisões, invejas, bebedeiras, orgias (Gl 5, 19-21), que são incompatíveis com o Reino de Deus. Segundo Paulo a unidade, porém, é fruto do Espírito. A obra deste se manifesta através de “amor, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, continência”. E acrescenta: “Contra estes não há lei. Se vivemos do Espírito, andemos também segundo o Espírito. Não cobicemos glória vã, provocando e invejando uns aos outros” (Gl 5, 22-26). Consequentemente, a unidade é obra do Espírito Santo. Se a Igreja mantiver a unidade, produz seus frutos. É na relação com o Espírito, fonte de liberdade, bem como de tolerância e abertura, que se nutre a comunhão fraterna dentro das Igrejas.

   4) O que podemos entender da imagem “casa de pedras vivas”, presente na Primeira Carta de Pedro, para a busca da unidade? Como se sabe a Primeira Epístola de São Pedro foi dirigida a algumas Igrejas da Diáspora. Vejamos como ele exorta os cristãos que lá estavam: “Convido-os a meditar sobre o que significa ser ‘casa de pedras vivas’, num mundo hostil que apesar disso deseja ser uma casa assim edificada, uma comunidade viva que partilha a justiça e a paz. (...) Continuando Pedro exorta as igrejas da diáspora: ‘Achegai-vos a ele, pedra viva, que os homens rejeitaram, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E, como pedras vivas, também vós vos tornastes casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecerdes sacrifícios espirituais aceitos por Deus através de Jesus Cristo’” (1 Pd 2, 9). Pedro aqui se refere à Igreja fazendo uma alegoria com a palavra casa e aos cristãos chamando-os de pedras vivas. Refletindo sobre este pensamento de São Pedro, ser pedras vivas para todo crente e para as comunidades de fé significa não permanecer isolados, sós, petrificados, estáticos, mortos mesmo em vida. Cristo é a pedra rejeitada e a angular por excelência. Sendo assim é o Espírito que permite que os que vêm a Ele sejam edificados como essa casa que é a Igreja. Então, partindo deste pressuposto só resta aos cristãos deixar - sem ser modelados por este mesmo Espírito que nos dar condições de formamos uma só família onde é superado tudo o que separa o gênero humano, onde se vive a salvação e se pratica a libertação. Esta família enquanto ‘casa de pedras vivas’ só será sustentada, ou melhor, construída constantemente na proximidade com o Cristo crucificado, com a ação do Espírito no mundo, que se constrói a unidade. Nesse sentido, a Igreja vive a unidade no meio das agonias e das alegrias dos homens e das mulheres. Ou seja, participando com eles nas lutas contra tudo aquilo que os divide e os impede de ser plenamente eles mesmos.        

     5) No contexto de Ecumenismo como podemos entender a citação de João 10,16: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: devo conduzi-las também; elas ouvirão minha voz; então haverá um só rebanho e um só pastor”? O Evangelho de João convida-nos a despertar e alimentar a fé em Jesus Cristo apresentando Ele como o Filho de Deus e o bom Pastor. Para João Jesus é o enviado de Deus, aquele que revela o Pai aos homens. Deus ama os homens e quer dar-lhes a vida. “Eu sou o bom Pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11). Todo o texto da parábola a quem esta perícope (Jo 10, 16) pertence tem uma importância decisiva para a orientação que os cristãos são convocados a dar ao movimento pela unidade. Neste sentido o Evangelho de João procura realçar e anunciar qual é o sentido profundo da vida e dos ensinamentos de Jesus. Por sua vez, Jesus revela o Pai e realiza sua vontade, dando sua vida em favor dos homens. A integridade do Pastor é um elemento de primeiríssima importância teológica. É nesse amor vivo pelo povo, nessa atitude de dádiva para com ele, que se nota a relação entre o bom Pastor e o Pai. O conhecimento do Pai, que se expressou através da existência de Jesus, teve seu fundamento nesse amor profundo que o Nazareno teve por seu povo. Ora, primeiro, as ovelhas significam o povo de Israel. No tempo de Jesus, como no passado, não tinham liderança responsável: era um rebanho sem pastor. Por isso, quando Jesus aparece, o escutam. Reconhecem em sua mensagem um foco de atenção comum e – o que é ainda mais importante – reconhecem em seu agir um guia que pode recuperar sua dignidade, para adquirir a segurança mínima que toda vida humana requer. Numa dimensão ecumênica, o enviado do Pai não limita sua missão ao povo de Israel. Realizou seu ministério no meio dele. No entanto, a entrega de sua vida tem uma dimensão universal. Houve outros povos, além dos judeus, que ouviram sua voz. Aqui surge a projeção ecumênica, universal, católica, da ação de Jesus. A partir de uma perspectiva projetada da economia da história da salvação, as divisões entre as nações já não têm mais vigência. Os povos da terra são convocados a escutar a voz do bom Pastor. Não só os dispersos da casa de Israel, mas também os que têm outras tradições, outros valores, outras culturas. Então todos se unirão numa só família, com um só guia: o bom Pastor, que tem coragem e amor por seu povo para dar sua vida por ele. Ou seja, a visão final que esta parábola do capítulo 10 do Evangelho de João apresenta é a de uma humanidade reunida e libertada que reparte a vida em abundância, graças ao amor do Pastor.     


REFERÊNCIA:
SANTA ANA, Júlio – Ecumenismo e Libertação (Reflexão sobre a relação entre a unidade cristã e o Reino de Deus) – Série IV: a Igreja, Sacramento de Libertação – Editora Vozes – 2ª edição – São Paulo – Brasil – 1991.

FIQUEM NA PAZ DE DEUS!
SEMINARISTA SEVERINO DA SILVA.

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