ORÍGENES (PADRE DA IGREJA)


           Orígenes nasceu no Egito, no ano 185, provavelmente em Alexandria. De pais cristãos, não é um convertido, o que é raro neste último decênio do século II. Seu pai Leônidas foi mártir na perseguição de Septímio Severo (202-203). Ele escreveu ao pai uma exortação ao martírio, cujo fato marcá-lo-á profundamente.
            Na Igreja antiga há outro Padre que não é um convertido: Santo Irineu. É quase certo que tenha nascido cristão ou que tenha sido cristão desde sua infância. Este fato caracteriza-os de modo bastante peculiar. A exemplo de Irineu, Orígenes manifesta pouco interesse pela literatura apologética. Esta constitui para eles um problema secundário. Evidentemente, eles também escrevem apologeticamente, exemplo disso é a Obra contra Celso. Esta obra é mais para atender um pedido de seu amigo Ambrósio, do que por vontade própria.
            Orígenes cresceu na Igreja e permaneceu muito ligado à sua estrutura. Há quem diga que foi discípulo de Clemente, o que não é confirmado por Eusébio. Este historiador não encontra nas obras de Orígenes um só texto no qual ele cite Clemente ou a ele se refira. Ao contrário de Clemente, Orígenes se refere à Igreja como instituição hierárquica. Defende a hierarquia da Igreja, não obstante os embates que travou com ela.
            Quando contava apenas 18 anos – vale salientar que desde os 17, com o martírio do seu pai, Orígenes torna-se o chefe da família – foi escolhido pelo Bispo Demétrio de Alexandria para dirigir a instrução dos catecúmenos. Embora se mostre mais prudente que Clemente, constata-se uma forte influência dos gnósticos sobre o seu pensamento. Todavia, ele não utiliza o termo gnóstico, tão caro a Clemente.
Segundo Eusébio, Orígenes recebeu as primeiras instruções de seu pai, não só no que concerne às ciências clássicas, como também ao estudo da Sagrada Escritura. Ele alcança uma vasta cultura escriturística, de tal modo que, como foi dito acima, aos 18 anos já era responsável pela escola catequética de Alexandria. É bom recordar que não se deve confundir a escola de Alexandria (διδασκαλειον) com a escola catequética.
O fato de ter assumido a direção da escola catequética, sendo ele tão jovem, não obstante sua vasta cultura, pode ter sido provocado pela rarefação ocasionada pela perseguição de Septímio Severo nas fileiras dos cristãos de Alexandria. Aliou-se a este motivo, sem dúvida, a elevada consideração que se tinha para com a cultura religiosa do jovem Orígenes.
Os anos de 203 a 218 foram decisivos para a vida e a evolução filosófico-teológica de Orígenes. Sua conduta irrepreensível e literalmente concorde com as exigências do Evangelho levou-o a um ato imprudente, a auto-castração.
Em 230 Orígenes fizera uma viagem à Grécia e, passando pela Palestina, foi ordenado sacerdote pelos bispos Alexandre de Jerusalém Teoctisto de Cesaréia, seus amigos, sem consentimento de seu bispo Demétrio. Este havia enviado Orígenes à Grécia a fim de conter heresias que se espalhavam pela Hélade.
Retornando a Alexandria, Origens foi posto sob acusação. Demetrio aproveita a ocasião para reunir um Concílio para excomungá-lo. Dois Concílios convocados sucessivamente reúnem bispos e sacerdotes do Egito e privam-no do cargo de ensinamento na escola de Alexandria e declaram-no indigno do ministério sacerdotal, expulsando-o da comunidade. A Igreja de Roma ratifica as declarações do clero egípcio.
Eusébio relata que Demetrio foi, nesta questão, guiado por um sentimento muito humano, o da inveja pela fama de Orígenes. Um sentimento pessoal de inveja talvez seja dizer muito. A condenação poderia ser enquadrada no âmbito da ação enérgica de Demétrio, para assegurar ao bispo de Alexandria a preeminência sobre a cristandade egípcia. Demétrio começara a organizar e a centralizar a Igreja de Alexandria: torna-se um monarca. Assim, a autoridade e o prestígio que Orígenes gozava, não só no Egito mas em todo Oriente, lançavam uma sombra sobre Demétrio.
A autoconsciência que Orígenes tinha de sua atividade como doutor tornava-o bastante livre nos confrontos com a hierarquia local. Depois da condenação, Orígenes abandona Alexandria e encontra refúgio a Teoctisto, na Cesaréia. Ele esperava o momento de reabilitação quando, passados alguns meses, morre Demétrio e é eleito bispo de Alexandria seu amigo Héraclas. Mas ao ex-amigo e colega não devia ser agradável a presença em Alexandria de uma personalidade como Orígenes. Deste modo, Héraclas mantém a condenação. Esta não visa à doutrina de Orígenes, mas sim sua pessoa.
Com Orígenes, pode-se dizer, o cristianismo adquire uma visão universalista. Ele tinha uma alma grega e cristã e por isso integra toda a cultura grega no cristianismo. Melhor: utiliza sua formação grega para transmitir a doutrina cristã. É bom ressaltar este aspecto quando se tem diante de si a acusação de Celso de que os cristãos eram pessoas sem cultura.
No tempo da perseguição de Décio (249-250), Orígenes, já avançado em idade, foi aprisionado e submetido a vários suplícios, na vã tentativa de enfraquecer sua resistência, sem, no entanto, privá-lo da vida. Talvez tenha sido nesta ocasião que o bispo de Alexandria tenha-o reconciliado com sua Igreja. Ele morreu com a idade de 69 anos. Eusébio não fala do lugar de sua morte. Alguns autores falam de Tiro, mas por qual razão teria ele abandonado Cesaréia por Tiro.
Aspectos fundamentais da Teologia de Orígenes: De Principiis.
            A teologia de Orígenes é uma teologia que não tende a afirmar, a definir, mas a buscar. Ele era antes de tudo um conhecedor das Sagradas Escrituras, de modo que seus escritos são exegéticos ou de fundo exegético. Sua teologia é desenvolvida a partir de uma visão bíblica sempre “problemática”. Este ponto de vista é bem ilustrado no prefácio à sua principal obra, De Principiis.
            O desenvolvimento teológico nasce de um texto bíblico. Este é o fundamento radical de toda sua reflexão. No entanto, o texto não pode se encerrar num sistema determinado, daí o fato de Orígenes apresentar as hipóteses de compreensão.
            A sua elaboração teológica tem duas facetas:
            a) Busca aprofundar a tradição
b) Propõe algo para interpretar, faz uma pesquisa e propõe soluções.
            Orígenes não quer senão propor. Ele apresenta as interpretações possíveis de um texto bíblico e deixa ao leitor a escolha. Não impõe a sua interpretação. Por exemplo, sobre a condição final das criaturas humanas não paraíso: terão ou não um corpo? Orígenes oferece ao ouvinte duas soluções:
a)     A Escritura que ensina a ressurreição do corpo.
b)     O platonismo que diz: a matéria não pode participar da contemplação final.
O modo interpretativo de Orígenes é o alegórico, cujo método não é uma novidade dele, mas de seu concidadão Filon. Assim sendo, ele apresenta como tipos de interpretação alegórica: interpretação literal, moral e espiritual, sendo este último o mais profundo, sensível só a poucos. Chamados espirituais perfeitos.
Deste modo, pode-se tratar o seguinte quadro representativo:
Corpo – sentido literal – insipiente.
Alma – sentido moral – progrediente.
Espírito – sentido espiritual – perfecti.
Por fim foi Orígenes quem estudou com atenção o Espírito Santo pela primeira vez, identificando a sua função específica na ação santificante. Orígenes foi o maior pensador cristão antes de Agostinho.


FIQUEM NA PAZ DE DEUS! POSTADO POR SEVERINO DA SILVA SOUZA.

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