MARIA NO EVANGELHO DE MATEUS

MARIOLOGIA DO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

            O Evangelho de Mt, juntamente com Lc, representa uma mariologia positiva, um aprofundamento da compreensão acerca da pessoa e missão de Maria na História da Salvação à luz da fé pascal em Cristo Morto e Ressuscitado. Mt é datado na década de 80 d.C. e tem como perspectiva teológica a apresentação do mistério de Jesus Cristo como cumprimento pleno e definitivo da promessa divina do AT, isto porque a comunidade na qual foi gestado o evangelho é predominantemente de judeu-cristãos. Mt apresenta o mistério de Jesus e de sua Páscoa profundamente enraizado na fé bíblica de Israel, mas na perspectiva da plenitude e superação escatológica da Antiga Aliança.
            Há em Mt dois grupos de testemunhos sobre Maria, testemunhos estes que são eminentemente cristológicos, ou seja, apresentam o mistério de Jesus Cristo e, neste, o mistério de Maria: Narrativas da Infância (Mt 1 e 2) e Ministério Público (Mt 12, 46-50 e 13, 55).
As Narrativas da Infância são a contribuição original de Mt. Mt 1 e 2 tem uma estrutura em quatro unidades: 1, 1-17 (Quem é Jesus? Sua gênese?), 1, 18-25 (Qual o modo da gênese/origem de Jesus?), 2, 1-12 (Onde se verifica sua vinda no tempo?) e 2, 13-23 (De onde começa sua missão?).

v Mt 1, 1-17 – GENEALOGIA DE JESUS
Mt 1,1 lembra Gn 2,4 e 5,1 revelando um paralelismo que significa que o nascimento de Jesus inaugura nova criação pois Jesus é o segundo Adão e Maria o terreno acolhedor (Mt 1, 18-20) do Espírito que pairou sobre as águas da primeira criação (Gn 1, 2). Em sua genealogia, Mt quer mostrar que Jesus, como descendente de Abraão, é membro do Povo de Deus e, como descendente de Davi, herdeiro das promessas messiânicas da casa/dinastia davídica (2Sm 7, 16)
Na Bíblia, as genealogias são baseadas no nome do pai como acontece nas sociedades patriarcais. Digno de nota é que Mt cita cinco mulheres que não são grandes Matriarcas, mas mulheres em situação irregular ou excepcional: Tamar (Gn 38, 14-18 – falsa prostituta de seu sogro), Raab (Js 2, 1-15 – prostituta estrangeira), Rute (Rt 3,1-4,16 – estrangeira que casa com Booz), Betsabéia (2Sm 11,1-12,25 – com quem Davi adulterou) e Maria a virgem que se torna mãe. Todas as quatro mulheres do AT foram veículo do desígnio messiânico de Deus, apesar de caracterizadas por uniões maritais irregulares, sublinhando a gratuidade da eleição divina. Mt cita tais mulheres para mostrar a ação de Deus mediante modalidade humanamente “não regulares” a fim de preparar a narração das maravilhas operadas pelo Altíssimo na virgem Mãe Maria.
A genealogia de Mt termina com uma grande ruptura: no final do curso natural das gerações, chegando a José se interrompe bruscamente dando uma guinada para a virgem Maria e desembocando no Messias esperado (v.16). Tal mudança está situada no final da terceira série de quatorze gerações, isto é, no ponto mais elevado de um desígnio histórico-salvifico (os números aqui indicam plenitude!). Maria é a última antes de Cristo. Maria é o ponto de inflexão a partir do qual tem início uma outra genealogia, a da nova humanidade, aquela gerada segundo o Espírito. Maria emerge, pois, como o seio da nova criação, na qual o Deus da história da salvação age de maneira absolutamente gratuita e surpreendente.

v Mt 1, 18-25 – ANÚNCIO A JOSÉ
Os vv. 18-25 constituem a narração verdadeira e própria da concepção de Jesus: eles descrevem a modalidade extraordinária de sua “gênese”. Manifestam-se neles duas intenções: de um lado, a de sublinhar a ligação legal do menino com “José, filho de Davi” (v.20), e por causa disso José está no centro da narração. Por outro lado, a de afirmar que o que aconteceu em Maria é obra não de pai humano mas do Espírito Santo (vv. 18.20); a gravidez de Maria, situada cronologicamente no período do noivado judaico antes da convivência na mesma casa, é fruto de ação divina. Como nas situações não regulares das mulheres da genealogia manifestaram-se a fidelidade e o poder de Deus, do mesmo modo agora, na situação de transição de sua humilde serva Maria, o Altíssimo faz grandes coisas. Assim, se graças à descendência davídica de José, Jesus é legalmente filho de Davi, graças à inaudita concepção por obra do Espírito Santo, ele é filho de Deus (Mt 2,15). Em Maria se cumpre a espera messiânica davídica por uma surpreendente, indeduzível e improgramável ação divina. A idéia da ausência da ação humana de paternidade é confirmada nos vv.24s. O termo “até que” não requer que, depois do nascimento do menino, José tenha “conhecido” Maria; ele se limita apenas a indicar o termo último para o qual a narração se orienta (Cf. por exemplo 1Tm 4,13).
A maternidade de Maria é virginal: essa é a idéia testemunhada com evidência pelo texto. Em apoio do paradoxal binômio da descendência davídica e da concepção virginal, Mt 1,22s menciona o oráculo de Is 7, 14 lendo-o numa indicação profética da futura concepção virginal do Messias. Desse modo, enquanto sublinha o cumprimento da espera messiânica em Jesus, evidencia que nasceu prodigiosamente da virgem Maria Aquele que é o Emanuel, o Deus conosco (v.23). Relida à luz pascal, a concepção de Jesus se apresenta então como evento trinitário, como obra do Espírito, como uma espécie de páscoa antecipada. Em Maria se realiza densamente o que aconteceu na morte e ressurreição do Senhor, história trinitária revelada para a nossa salvação: ela é o sóbrio, mas rico lugar do mistério no qual é compendiada e oferecida a plenitude escatológica dos tempos.
Qual o fundamento histórico da concepção virginal de Jesus relatada por Mt? Qual sua fonte histórica? Diante de varias hipóteses, a mais provável é a que afirma uma fonte precedente que tenha transmitido ao evangelista um núcleo histórico irredutível a respeito da concepção virginal; esse dado, mais tarde, teria sido iluminado e aprofundado pela luz pascal. Essa narração pré-evangélica, como a do evangelista, não dispunha de outras fontes plausíveis além de um dado histórico transmitido oralmente. É mais fácil explicar os testemunhos do NT supondo uma base histórica do que supondo uma criação puramente teológica.  O evangelista deve, pois, ter reconhecido na vida de Maria um núcleo histórico indiscutível, testemunhado e relido à luz da Páscoa; esse núcleo era constituído pela experiência única e absolutamente indeduzível da ação divina, a qual, sem intervenção de pai humano, fez da Virgem a Mãe do Messias.
A Virgem concebeu por obra do Espírito Santo! Deus fez em Maria algo absolutamente novo e inaudito, algo que só progressivamente será tematizado nela e que só na plena luz pascal se esclarecerá como “a gênese de Jesus Cristo” (v.18), a concepção e o nascimento do Messias, “que salvará o povo dos seus pecados” (v.21).

v Mt 2, 1-12 – NASCIMENTO E VISITA DOS MAGOS
            A terceira unidade do Evangelho da Infância de Mt esclarece o “onde” do advento divino à história, em sua forma visível, perceptível aos olhos dos homens: Belém da Judéia, a cidade de Davi. Mt apresenta a idéia positiva da descendência davídico-régia do Messias e da salvação oferecida por meio dele a todos os povos. Mt explica o mistério de Jesus a uma comunidade formada de cristãos judeus e gentios. Nesse quadro messiânico-régio, Maria é apresentada como mãe do Messias-rei (vv.2.11). A homenagem de adoração prestada pelos magos ao menino no colo da mãe apresenta Maria no papel da rainha-mãe do AT (1Rs 1, 15-21; 2, 12-20).
            O episódio dos magos não é propriamente história, mas um midrash, isto é, uma história construída para fins de edificação. Isso, contudo, não impede que o midrash tenha sido plasmado de um núcleo histórico, proveniente de reminiscências familiares. Estamos diante de densa releitura pascal, que confessa Jesus como messias e salvador universal e colada ao lado dele sua mês, com acentos que refletem a percepção de fé da sua extraordinária proximidade do Filho. O fundamento pré-pascal desse dado só pode ser a proximidade de Maria em relação à missão daquele que, sendo seu filho, será confessado Senhor e Cristo e Filho de Deus: no “onde” do nascimento se reflete a messianidade do Filho e a excepcional dignidade da mãe.

v Mt 2, 13-23 – FUGA PARA O EGITO
            A última unidade do Evangelho da Infância de Mt apresenta o “de onde” a missão de Jesus começou. Mt desloca Jesus de Belém para Narazé, o faz ir para o Egito e voltar, ao mesmo tempo comenta a morte dos inocentes em Belém com as palavras usadas por Jeremias para descrever as tribos do Norte condenadas ao exílio. Assim, de certo modo, o Jesus de Mt revive o êxodo e o exílio, isto é, revive de maneira plena a história de Israel. O menino é, pois, a figura do novo Israel, e nele vem cumprir-se finalmente a espera messiânica do povo do êxodo e do exílio: Nazareu (v.23) pode lembrar o rebento messiânico (Is 11, 1), o santo de Deus (Jz 13, 5.7) ou o resto escatológico de Israel (Is 42,6; 49,8). Ao lado dele, sempre presente, como mostra a expressão recorrente “o menino e sua mãe” (vv. 13.14.20.21) está Maria: figura do Israel da espera que entra no tempo escatológico. A mãe do Messias Rei que acolhe todos os povos na unidade anterior aqui é a mulher do êxodo e do exílio, reconduzida com o Narazeno para a terra dos pais: Maria representa a porta através da qual a espera passa pra o cumprimento.

FIQUEM NA PAZ DE DEUS!
SEMINARISTA SEVERINO DA SILVA.

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